A ''Cultura das ruas'' está presente mais uma vez na programação pedagógica do Festival de Música. Uma oficina de hip hop foi iniciada ontem abordando a formação de MC abreviatura para mestre-de-cerimônia (o rapper que canta e cria rimas), um dos quatro pilares do movimento que inclui ainda as figuras do DJ, grafiteiro e b.boy (dançarino de break).
A oficina fornece um panorama histórico do hip hop no mundo e no Brasil, além de falar sobre as diferenças entre o rap pop e o rap underground e sublinhar o papel do MC na sociedade e suas possibilidades profissionais como um produtor. ''Na parte prática vamos mostrar como compor rimas, mas sem a pretensão de querer formar MCs. A idéia é fazer com que os alunos descubram o potencial que têm dentro de si para rimar, que é uma atividade espontânea, individual e depende do talento de cada um'' explica a MC gaúcha Lilian Carolina, a Lica, responsável pelo curso.
Lica veio há dois anos a Londrina como integrante do extinto grupo La Bela Máfia, formado só por garotas. Ela fez parte também do grupo La Groove James. Atualmente, aguarda o lançamento do CD-coletânea ''Pantinhagem'', que vai chegar às prateleiras acompanhando o número de estréia da revista homônima. O disco é dedicado a várias vertentes da black music e inclui a faixa ''Brazilian Conect'', de sua autoria.
''Esse projeto vai virar um selo. Depois da coletânea, serão lançados CDs-solo de cada um dos doze participantes'' conta ela. Como ativista do movimento, Lica ministrou oficinas de hip hop durante dois anos, através de um projeto bancado em parceria pelas Secretarias de Educação e Cultura do Governo do Estado. Ela integrava uma equipe de oficineiros que incluía DJ, grafiteiro e b.boy. Foram a escolas da rede pública e à Febem.
''Na Febem, trabalhei mais com as meninas. Foi uma experiência interesssante porque, na ocasião, elas contavam apenas com oficinas de costura, culinária e passavam o resto do tempo fazendo a limpeza. Apresentamos uma outra opção'' conta. A MC constata que o hip hop está se profissionalizando na capital gaúcha. Segundo ela, a fase efervescente de multiplicação de grupos teria sido substituída por um período de calmaria e filtragem.
''A cena está mais sólida'' afirma. ''Os grupos estão produzido músicas de qualidade radiofônica. E o legal é que os DJs estão apoiando e executando seus trabalhos. A onda veio e passou. Quem tinha raiz e aproveitou aquele momento, conquistou espaço e ficou de pé. Muitos grupos acabaram. Muitas meninas desistiram. Do La Bela Máfia, só eu continuei. Houve uma época em que havia 10 grupos femininos de rap na cidade. Hoje o que atrai as meninas é o grafite. Quem continuou, está indo além da militância política. Quer se consolidar como músico também, porque é através da música que expressa suas idéias''.
Ainda sobre a participação de mulher no hip hop, ela percebe uma certa vulgarização na mídia. ''Nos clipes, elas só aparecem rebolando ao fundo. Estamos com um problema de referências'' diz. Em Londrina, é provável que Lica se impressione com a participação das mulheres no movimento hip hop local, revigorado com o surgimento de vários grupos femininos. Não por acaso, metade das 30 inscrições para sua oficina são de garotas. O curso segue até domingo, quando haverá uma apresentação da turma.

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