Eles apregoam a prática de sexo sem camisinha. Organizam festas com o objetivo de contrair HIV. Surgiram nos Estados Unidos e hoje já constituem um movimento com adeptos no mundo todo, incluindo o Brasil. O fenômeno dos ''barebackers'' é retratado no documentário ''O Presente'' (''The Gift''), título mais polêmico da mostra de filmes do ''Mix Brasil Londrina Festival da Diversidade Sexual, que começa hoje e termina no domingo na Casa de Cultura da UEL (R. Mato Grosso, 537).
A programação abrange ainda exposição de artes visuais, mesas redondas temáticas e o Fórum Estadual de Diversidade Sexual. O tema dessa segunda edição é ''Direitos Sexuais São Direitos Humanos''. O coordenador do evento, Paulo Wesley Faccio, salienta que a proposta é dar visibilidade à questão da diversidade sexual e dos direitos humanos, além de colocar em pauta a discussão sobre a educação sexual nas escolas.
''O MEC incluiu este último ponto no currículo transversal, mas é preciso ir além pressionando para que a educação sexual seja adotada como prática na política educacional do Município. Nossa intenção é provocar esse debate'' diz ele. Para a exposição de artes visuais, a organização contemplou trabalhos de vários artistas londrinenses, entre eles a fotógrafa Fernanda Magalhães cuja parceria com a jornalista, poeta e escritora Karen Debértolis rendeu a obra ''Corpo Reconstrução Ação / Ritual / Performance''.
Outro destaque da mostra é a série ''Dualidade Verbal Imagética, um Projeto em Construção'', do fotógrafo Rogério Ghomes. Constam ainda trabalhos dos artistas Alex Lima, Fábio Gatti, Paula Dalberto, Osmar Hernandes Mompiam, Olga Nardi, Karina Rampazzo, Dione Domingos, Rudgardi Couto, Camila Abrahão, Flávio Rex e Danny Haiduk. Para a mostra de filmes, foram selecionadas as películas exibidas na 11 edição do Mix Brasil de São Paulo, realizada no ano passado com produções dos Estados Unidos, Canadá, Noruega, Holanda, Suiça, França, Austrália e Brasil.
Os filmes foram divididos em blocos temáticos: Mix Jovem, Mostra Londrina, Mostra Competitiva (que reúne os títulos que disputaram premiação na versão paulistana do evento), Sexy Boys, O Presente, Trash-o-rama e Mulheres Apaixonadas. A produção local comparece com 7 títulos, entre eles o filme em Super-8 ''Manequim 37'' e o curta-metragem ''Londrina em Três Movimentos'', de Rodrigo Souza Grota.
Para abrir a programação, hoje, às 20 horas, foi escalado o documentário ''A Suiça Rebelde'', vencedor da mostra competitiva de 2003 de São Paulo. Com direção de Carole Bonstein, o filme conta a história da ativista Annemarie Schwarzenbach recapitulando sua vida repleta de amores homossexuais, militância política radical, uso de drogas e suicídios que não deram certo. É o documentário ''O Presente'', porém, que deverá levantar controvérsias entre as poltronas.
O vídeo de 62 minutos será exibido no sábado, às 20 horas. Dirigido por Louise Hoghart, traz depoimentos de adeptos de ''bug chasing'' (prática deliberada de contrair o vírus da Aids) e de ''gift giving'' (prática deliberada de transmitir o vírus aos outros). Revela pela primeira vez nas telas o universo dos ''barebackers'' (cavalgada sem sela), os jovens que fazem questão de não usarem camisinha nas relações com outros homens.
Os barebackers enxergam os infectados como ''presenteados'', daí o título do filme. Eles defendem a liberdade individual como premissa da sociedade moderna, embora com a opção deixem de enxergar os problemas envolvidos no tratamento da doença, como o fato de que grande parte da população em tratamento possui resistência aos medicamentos. No documentário, médicos dizem que o número de caso de ''resistentes'' ao coquetel aumentará e muito até 2005.
O filme ainda expõe o funcionamento das ''Sex Partys'' (festas de sexo), onde ninguém é de ninguém e o vírus se alastra livremente - a camisinha ali é proibida. Exibido em mais de 40 festivais ao redor do mundo, essa produção de 2002 traz à tona um grupo que prefere trocar bem-estar e saúde em nome da liberdade e da adrenalina causada pelo risco. Não é improvável que o assunto repercuta durante os debates programados para o evento, embora as mesas já tenham temas definidos.
É o caso, por exemplo, da questão (menos polêmica, mas não menos urgente) da educação sexual nas escolas, que será discutida nas mesas-redondas ''Construindo Políticas de Sustentabilidade para Educação Sexual'' e ''Exposição de Pesquisas e Trabalhos com Interface Saúde / Educação Sexual''. A primeira, que ocorre amanhã às 14 horas, contará com a presença das educadoras Sueli Teixeira Mello (coordenadora do Ministério da Educação para o programa de prevenção e educação sexual para as escolas) e Julia Cordellini (responsável pela aplicação do programa de educação sexual nas escolas de Curitiba).
O juiz da 10 Vara da Justiça Federal do Rio Grande do Sul, Roger Raupp Rios, também é aguardado com expectativa por ter se destacado na defesa dos direitos dos homossexuais em processos relacionados aos direitos previdenciários e à parceria civil. Também participante do evento, o ativista curitibano Toni Reis vem relatar sua experiência no grupo Dignidadde e contar como conseguiu garantir através de uma brecha na lei brasileira a união civil com seu parceiro, que é estrangeiro.
As mesas integram a programação do Fórum Estadual da Diversidade Sexual, previsto para reunir cerca de 25 representantes de diversas Organizações não-governamentais (ONGs) do Paraná. ''É importante frisar que o evento não é direcionado apenas para o público homoerótico, mas a toda a comunidade, já que filmes e debates podem mudar os paradigmas'' conclui Paulo Wesley Faccio.
A 2 edição do Mix Brasil Londrina tem patrocínio da UNESCO/ Programa Nacional de DSTC/AIDS, Ministério da Saúde, Secretaria Estadual de Saúde e Secretaria Municipal da Saúde, além de apoio da Secretaria Municipal de Cultura. A entrada para a programação diurna é franca. À noite será cobrado ingresso de R$ 5,00 (inteira) e R$ 2,50 (meia).

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