Como o diabo gosta. Logo no terceiro dia da 60 Mostra Internazionale d'Arte Cinematográfica, um filme feito em casa repercute ruidosamente em toda a laguna veneziana, com forte ressonância no resto do país. A imprensa ruge a ''destra e a sinistra'', o caldeirão de paixões fervilha e os radicais, muitos com carteirinha vencida, trocam acusações e descortesias. Neo-realismo, dramalhão, comédia à italiana. Cinema político à italiana. ''Il cuore del cinema''. Nesta última configuração, para citar apenas alguns, cabem clássicos de ontem como ''O Bandido Giuliano'' e ''O Caso Mattei'', de Francesco Rosi. Ou os mais recentes ''O Delito Pasolini'' e ''Os Cem Passos'', já nos 1990, ambos assinados por Marco Tullio Giordana. Todos com aquela voracidade, aquela gana em busca dos tais pratos limpos. A bola da vez, ou o primeiro caso político do Festival de Veneza, chama-se ''Segredos de Estado'', de Paulo Benvenutti, e se debruça sobre uma ferida exposta na história contemporânea da Itália. Uma entre muitas, adormecidas à espera de vigorosos sopros de novidades.
De novo na berlinda o nome de Salvatore Giuliano. E outros nomes tidos como notáveis. O filme inocenta o bandido legendário e seu bando o Robin Hood daqueles tempos de pós guerra, de penúria e flagelo social de ter disparado contra uma manifestação comunista, e responsabiliza diretamente o Estado pela morte de 11 pessoas e ferimentos em outras 57, em 1º de maio de 1947, a bala e com explosões de granada, no episódio conhecido como o massacre de Portella di Ginestra, na Sicília. O trabalho de Benvenutti, que bem poderia ser chamado de ''investigação sobre cidadãos acima de qualquer suspeita'', oferece um rigor (mili) métrico no levantamento dos fatos. O roteiro de Benvenutti, longe de apenas sugerir, dá com todas as letras nomes aos bois e ao dono da boiada. No mesmo saco conspiratório estão mafiosos, políticos influentes (Giulio Andreotti), o ministro do Interior (Scelba), o Vaticano ( Pio XII e o cardeal Montini) e a CIA, preocupada com a primeira vitória eleitoral da esquerda na Sicília. Uma testemunha-chave, Pisciotta, capaz de esclarecer os detalhes do plano e citar nominalmente os principais envolvidos, é envenenado na prisão em 1954, quando o advogado-investigador sente que está próximo de tornar pública a maquinação.
Honrando a tradição que mantém Veneza num permanente viés gauchista, não importa o quanto isto possa conter de anarco-anacronismo, o filme obteve recepção calorosa. Explicada muito mais pela memória não cicatrizada do que pelo reconhecimento diante de uma construção primorosa, embora sempre atenta aos chamados ônus da provas recolhidas por Benevenutti em seis anos de pesquisas. De qualquer maneira, uma estréia digna a do cinema italiano aqui em Veneza, sempre empenhado em alvejar este inesgotável rol de roupa suja.

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