FESTIVAL - Clooney e Zeta-Jones, uma química perfeita
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 03 de setembro de 2003
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Veneza<br> Especial para a Folha2 
Foi a mais badalada coletiva de imprensa até aqui, com direito até à extravagante performance de uma jornalista-tiete de George Clooney que, para espanto e impotência momentânea da rígida segurança, fez uma longa declaração, pediu a mão do ator e em seguida, com a paciente participação dele, encenou um casamento com o próprio, com véu e grinalda e tudo o mais. Este comportamento de boa parte dos colegas mediáticos, aliás, vem se repetindo com frequência cada vez maior. Seriam credenciais falsificadas ou teriam sido desviadas? O fato é que, encerrada a entrevista, Catherine Zeta-Jones e George Clooney, ainda na sala, receberam voraz e asfixiante assédio, não de adolescentes com caderninhos de escola, mas de senhoras e senhores com crachás da imprensa mundial, se espremendo e se hostilizando por uma assinatura ou uma foto. Já nas coletivas dos filmes de Tsai Ming Liang e Manoel de Oliveira, até aqui os dois melhores do festival, pouco mais de uma dúzia de críticos, inclusive impedidos de fotografar não os atores, mas os diretores.
Aborrecimentos à parte, uma ótima comédia sobre a guerra dos sexos, este ''Intolerable Cruelty'', que os irmãos Joel e Ethan Coen mandaram ''hors-concours'' para o Festival de Veneza, ainda uma ''work in progress'' estariam faltando apenas alguns poucos arremates na montagem final, explicou Clooney na ausência da dupla, mas sem especificar.
Esperta, redonda, hilariante principalmente em sua metade inicial, o filme é uma homenagem ao velho e glorioso período das ''screwball comedies', quando Hollywood, de fato, sabia escrever para cinema, os atores eram tão afiados nas suas interpretações quanto nos próprios carismas, e os diretores, bem, os diretores ainda não se chamavam autores. Eram apenas os melhores de seu tempo e pensando bem de outros tempos bem mais recentes, também.
George Clooney faz um advogado divorcista de Beverly Hills tão famoso quanto carente de escrúpulos. É o mínimo que se pode dizer deste profissional especializado em rapinar fortunas de mulheres ou homens em processo de separação a partir de manobras definitivamente baixas. Catherine Zeta-Jones uma deusa em toda sua glória, na tela menos se comparada à inesquecível aparição ao vivo é a divorciada iludida pela falcatrua, mas capaz de irretocável vingança. Mas cupido está a postos e cumpre sua parte com a eficácia habitual, embora muitas rasteiras e trambiques desfilem diante de uma relaxada platéia. É permitido pensar em Clark Gable, Spencer Tracy e Cary Grant, e obviamente em Katherine Hepburn, e em Howard Hawks no melhor de sua forma. Geoffrey Rush e Billy Bob Thornton são coadjuvantes de luxo, mas não apenas de passagem.
De volta à coletiva. Muito bem-humorado, Clooney fez questão de enfatizar o caso de amor que mantém com os irmãos Coen, para ele os melhores roteiristas atualmente na praça. ''O que dá trabalho é não atrapalhar os roteiros''. Quanto à minuciosa construção de seu personagem a um só tempo fascinante e repulsivo, diz que não se inspirou em ninguém em particular: ''Conheço muitos, mas quase não trabalho com advogados. São tão importantes quanto os médicos, mas tento evitá-los, trato de não precisar deles''. Quanto aos atores que teriam inspirado sua interpretação como o advogado Miles Massey, nem pensou duas vezes: ''Roubei um pouco de todo mundo, Spencer Tracy, Cary Grant, por aí''.
Não teve como fugir do lugar comum proposto pelos italiano: ''O que lhe parece a Itália? Está gostando ?'' , mas transformou a resposta em utilidade pública: ''Gosto tanto que Steven Soderberg e basicamente todo o elenco de 'Onze Homens e Um Segredo' vão rodar no fim do ano, em Roma, uma sequela. E, além disso, a vida que você levam aqui me agrada muito, a boa comida, os vinhos, vocês sabem, a vida...''
Por sua vez, Zeta-Jones respondeu diversas perguntas com a mesma simpatia e elegância de Clooney. Mas não precisava. Bastou estar ali.


