Biarritz - O brasileiro ''Madame Satã'', de Karim Ainouz, e o argentino ''Tan de repente'', de Diego Lerman, são dois filmes de estréia que têm em comum a exaltação das contradições, e ambos foram igualmente aplaudidos no Festival de Biarritz.
''Madame Satã'', do brasileiro Karim Ainouz, é um filme de estréia e sua qualidade lhe valeu figurar na seleção oficial fora de competição do último Festival de Cannes.
Ainouz faz o retrato de um personagem contraditório e fascinante: João Francisco dos Santos, figura célebre da Lapa nos anos 30, que foi delinquente, travesti, rainha do carnaval, presidiário e pai adotivo de sete filhos.
Um personagem cheio de dualidades, ao mesmo tempo violento e terno, forte e frágil, artista e criminoso, encarnado de maneira magistral por Lázaro Ramos, um ator de excepcional sutileza.
Através dele, o diretor ressuscita um Rio hoje desaparecido, descrevendo uma época na qual se forjou a cultura de uma cidade feita de mestiçagens.
Lerman, por sua vez, é mais uma amostra de que o cinema argentino está cheio de talentos. O diretor optou pelo branco e preto retomando o tema e os personagens de seu curta ''La Prueba''.
O filme narra a trajetória de três moças. Márcia, uma jovem gorda e depressiva, cuja vida rotineira dá uma virada inesperada ao conhecer duas moças punk, que se fazem chamar ''Lenin'' e ''Mao'' e que a arrastam para um caminho que tomará rumos surpreendentes.
De crua e violenta, a narrativa vai se tornando humorística e terna à medida que vão aparecendo sutilezas e contradições nos personagens. A mudança de tom primeiro surpreende, em seguida diverte e leva o espectador a um desenlace tão simples como humano, todo ele com a força de um branco e preto de grande beleza plástica.
As contradições dos personagens e as situações limites são pintadas pelo diretor com um toque de desencanto, algo de fatalismo e muito humor, o mesmo com o qual conta que nasceu em Buenos Aires a 24 de março de 1976, o dia em que os militares argentinos davam o golpe de estado de trágica memória.

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