Carlos Eduardo Lourenço Jorge
De Veneza
Especial para a Folha2
‘‘I Sognatori/The Dreamers’’, ou literalmente ‘‘Os Sonhadores’’, não é propriamente um filme sobre 68. Seria injusto, como colocação inicial, apreender a obra mais aguardada e badalada do 60º Festival de Veneza como tentativa de leitura global de um fenômeno tão complexo e tão influente naquele momento do século passado, fértil em mudanças. Mas é um filme que está ‘‘dentro’’ do espírito de 68. Procura recriar o ambiente, o estado de espírito, o ‘‘feeling’’. É um trabalho absolutamente pessoal em que Bernardo Bertolucci coloca tudo por igual com a coragem, diga-se, de expor-se a qualquer crítica. Em especial aquela de que o seu 1968 nada tem de operário, e que, pelo contrário, é muito intelectual, muito ‘‘filhinho de papai’’.
  Os três ‘‘sonhadores’’ de Bertolucci são cinéfilos saindo adolescência vivem intoxicados por cinema e interpretam a vida como se fosse um filme. E quando o ministro Malraux afasta Henri Langlois, o homem que criou a Cinemateca Francesa, os três vão às ruas, se rebelam e acabam se conhecendo. Começa 68. E começa a história de Théo e Isabel, gêmeos no limite do incesto, e de Matthew, jovem estudante americano em Paris que vai se transformar no terceiro cúmplice. O trio, enquanto nas ruas explode a contestação, se tranca em casa descobrindo e explorando a paixão intelectual, uma sexualidade liberada meio de improviso e a vontade de mudar o mundo. Vontade, no entanto, limitada a quatro paredes domésticas e acima de tudo às relações interpessoais.
  O componente mórbido é muito forte neste triangulo, mas é precisamente através desta morbidez que vem a liberação. E também da pedra atirada da rua quase ao final, quebrando a janela daquele apartamento quase doentio, meio fora do mundo, numa espécie de apelo urgente e convocação militante para a turbulência exterior. Lá fora, os ‘‘sonhadores’’, embora confusos, vão se defrontar com a possibilidade de superar a angustia existencial da quase terminal experiência privada.
  Esta é a história, mas contada assim diz muito pouco deste filme literalmente inundado pelo cinema, com citações freqüentes e diretas de muitos títulos, com cenas reproduzidas de inúmeros clássicos. Mas nada é gratuito, tudo é substancial. Como substancial é a sexualidade, porque é por meio dela que chegam e se impõem as mudanças. É claro que estes dois elementos, cinema e sexualidade, são determinantes da visão cinematográfica de Bertolucci, de resto um ponto de vista de voyeur – jamais renegado e com insistência demonstrado. O paralelo com ‘‘O Último Tango em Paris’’ é não só permitido como legítimo, bem como uma aproximação com ‘‘O Conformista’’. Sobretudo porque são filmes em que Bertolucci exercita com grande lucidez aquela já referida morbidez nos relacionamentos.
  ‘‘I Sognatori’’ pode ser incômodo e aborrecido para certa parcela de público, não por sua explicitude, que não traz nada que o espectador já não tenha visto antes, mas pela maneira como está formalmente posto, a câmera sempre grudada nos personagens em planos seqüência de rara habilidade, com o firme propósito de se apossar dos atores, quase de roubar-lhes a alma. Porque o cinema de Bertolucci é sempre invasor e obviamente inquietante, aqui em grau elevado. Prova disso é o confronto com o filme que é referência de fundo e sempre presente, ‘‘Uma Mulher Para Dois’’ (Jules et Jim). Ao descrever seus personagens, o olhar de Truffaut buscava, acima de tudo, a inocência do amor. Já Bertolucci reivindica a inocência da sexualidade penetrando no lado mais obscuro dos três jovens. Por isso o filme agradou tanto à parcela mais jovem da platéia veneziana e de certa forma perturbou os cinquentões, aqueles mesmos que há quase quatro décadas foram apanhados, entre estáticos, estupefatos e reagentes, no contra-pé do turbilhão de mudanças. Neste sentido faz sempre sentido o livro de Zuenir Ventura: ainda estamos terminando, de uma forma ou de outra, aquele ano de 1968, para muitos o primeiro do resto de suas vidas. E o ideal é à la Bertolucci, sem arrependimentos, como sugerem as palavras imortais de Edith Piaff em ‘‘Je ne Regrette Rien’’, cantada sobre os títulos finais do filme.

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