FESTIVAL - Bertolucci à sombra de 1968
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 02 de setembro de 2003
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Veneza<br> Especial para a Folha2 
Carlos Eduardo Lourenço Jorge
De Veneza
Especial para a Folha2
I Sognatori/The Dreamers, ou literalmente Os Sonhadores, não é propriamente um filme sobre 68. Seria injusto, como colocação inicial, apreender a obra mais aguardada e badalada do 60º Festival de Veneza como tentativa de leitura global de um fenômeno tão complexo e tão influente naquele momento do século passado, fértil em mudanças. Mas é um filme que está dentro do espírito de 68. Procura recriar o ambiente, o estado de espírito, o feeling. É um trabalho absolutamente pessoal em que Bernardo Bertolucci coloca tudo por igual com a coragem, diga-se, de expor-se a qualquer crítica. Em especial aquela de que o seu 1968 nada tem de operário, e que, pelo contrário, é muito intelectual, muito filhinho de papai.
Os três sonhadores de Bertolucci são cinéfilos saindo adolescência vivem intoxicados por cinema e interpretam a vida como se fosse um filme. E quando o ministro Malraux afasta Henri Langlois, o homem que criou a Cinemateca Francesa, os três vão às ruas, se rebelam e acabam se conhecendo. Começa 68. E começa a história de Théo e Isabel, gêmeos no limite do incesto, e de Matthew, jovem estudante americano em Paris que vai se transformar no terceiro cúmplice. O trio, enquanto nas ruas explode a contestação, se tranca em casa descobrindo e explorando a paixão intelectual, uma sexualidade liberada meio de improviso e a vontade de mudar o mundo. Vontade, no entanto, limitada a quatro paredes domésticas e acima de tudo às relações interpessoais.
O componente mórbido é muito forte neste triangulo, mas é precisamente através desta morbidez que vem a liberação. E também da pedra atirada da rua quase ao final, quebrando a janela daquele apartamento quase doentio, meio fora do mundo, numa espécie de apelo urgente e convocação militante para a turbulência exterior. Lá fora, os sonhadores, embora confusos, vão se defrontar com a possibilidade de superar a angustia existencial da quase terminal experiência privada.
Esta é a história, mas contada assim diz muito pouco deste filme literalmente inundado pelo cinema, com citações freqüentes e diretas de muitos títulos, com cenas reproduzidas de inúmeros clássicos. Mas nada é gratuito, tudo é substancial. Como substancial é a sexualidade, porque é por meio dela que chegam e se impõem as mudanças. É claro que estes dois elementos, cinema e sexualidade, são determinantes da visão cinematográfica de Bertolucci, de resto um ponto de vista de voyeur jamais renegado e com insistência demonstrado. O paralelo com O Último Tango em Paris é não só permitido como legítimo, bem como uma aproximação com O Conformista. Sobretudo porque são filmes em que Bertolucci exercita com grande lucidez aquela já referida morbidez nos relacionamentos.
I Sognatori pode ser incômodo e aborrecido para certa parcela de público, não por sua explicitude, que não traz nada que o espectador já não tenha visto antes, mas pela maneira como está formalmente posto, a câmera sempre grudada nos personagens em planos seqüência de rara habilidade, com o firme propósito de se apossar dos atores, quase de roubar-lhes a alma. Porque o cinema de Bertolucci é sempre invasor e obviamente inquietante, aqui em grau elevado. Prova disso é o confronto com o filme que é referência de fundo e sempre presente, Uma Mulher Para Dois (Jules et Jim). Ao descrever seus personagens, o olhar de Truffaut buscava, acima de tudo, a inocência do amor. Já Bertolucci reivindica a inocência da sexualidade penetrando no lado mais obscuro dos três jovens. Por isso o filme agradou tanto à parcela mais jovem da platéia veneziana e de certa forma perturbou os cinquentões, aqueles mesmos que há quase quatro décadas foram apanhados, entre estáticos, estupefatos e reagentes, no contra-pé do turbilhão de mudanças. Neste sentido faz sempre sentido o livro de Zuenir Ventura: ainda estamos terminando, de uma forma ou de outra, aquele ano de 1968, para muitos o primeiro do resto de suas vidas. E o ideal é à la Bertolucci, sem arrependimentos, como sugerem as palavras imortais de Edith Piaff em Je ne Regrette Rien, cantada sobre os títulos finais do filme.


