Desde que descobriu o fogo, o homem começou a subir pelas escadas dos sonhos até os delírios e pesadelos da humanidade. Então, fez-se a comunicação.
Essa vocação ancestral tem a magnitude da arte, que em eventos como o Festival Internacional de Londrina (FILO), reunindo artistas, técnicos e jornalistas de várias partes do mundo, desperta o instinto de querer subir novamente as escadas dos sonhos para conhecer os delírios e pesadelos do outro.
Fora do palco, na mesa do bar mais famoso do festival ou no restaurante onde atores e técnicos fazem as refeições, quando o idioma é uma barreira na comunicação, uma piscada pode salvar a parada, já que existem signos universais dos sentimentos. ''Ainda que não falem o idioma umas das outras, as pessoas querem conversar. Elas ficam gesticulando, tentando falar um pouco na sua língua mesmo. Porém, o interessante é que todos querem se comunicar'', compara o acompanhante Anderson José dos Santos, 22 anos, aluno de Turismo, da Unopar, intérprete do elenco da companhia Volksbuhne - ela mesmo uma Torre de Babel com integrantes alemães e búlgaros.
Para Santos descobrir os sonhos e os delírios no FILO depende mais da abstração, já que é poliglota com domínio do inglês, francês, alemão a caminho do japonês, que começou estudar recentemente. ''Se não dominasse esses idiomas não chegaria onde cheguei, sem sair do Brasil'', compara o rapaz.
Final da manhã de quinta-feira, Aeroporto de Londrina, o alemão Milan Peschel, 37 anos, do Volksbuhne, aguarda a chamada do embarque. O destino final será Berlim. Ele ainda tem tempo para uma última entrevista.
Antes disso ainda no hotel em que ficou hospedado, o alemão experimentou um pouco do idioma do Filo. Ao se despedir dos copeiros, o sorriso deles traduziu o ''muito obrigado pela gentileza''.
''É um pouco estranho isso. Essa alegria e receptividade do povo'', comentou Peschel que, contraditoriamente ao espetáculo ''A Luta do Negro e dos Cães'', que trata da intolerância e do racismo, assistiu a convivência pacífica no Brasil, abafando verdadeiras vergonhas, como as desigualdades sociais. ''Acho muito importante essa tolerância entre os diferentes povos, convivendo juntos através do festival'', diz Peschel, antes de embarcar.
Os sotaques dos nordestinos, gaúchos e mineiros viram embolada com o de portugueses, suíços, espanhóis, russos e dinamarqueses que desembarcam no Filo. Aí é fácil entender porque alguém como o estudante do curso de Geografia da UEL, Pedro Machado Almeida, 22 anos, intérprete do Odin Teatret, resolveu morar 11 meses na Dinamarca para aprender o idioma. Depois de pôr em prática pela primeira vez, o língua do país nórdico no Brasil, através do festival, o rapaz já pode dizer: ''Nunca se sabe quando a gente vai precisar saber uma língua...''
Até quando a amizade com o Filo e as andanças pelo mundo familiarizam o português, há horas em que é preciso contar com a compreensão do interlocutor, inclusive nas entrevistas.
A atriz Roberta Carreri, do Odin Teatret, confiou aos repórteres na coletiva sobre o espetáculo esse cuidado ao pedir que articulassem melhor as palavras - só assim poderia revelar os sonhos e delírios não só do espetáculo mas da artista que há 31 anos integra uma das maiores companhias teatrais do mundo.
Finalmente, na arte chega um momento em que descobrir o fogo não basta. É preciso soprar sobre as brasas dos devaneios. Festivais como o londrinense são vendavais que nos levam à vocação ancestral. Uma fogueira no meio da clareira fazendo sinais de fumaça.
''É um momento importante, onde nos encontramos com amigos, com gente que não se vê há muito tempo, conhecendo o que estão fazendo. Os artistas estão interessados no que outros grupos fazem. Estudamos Barba (Eugenio Barba, diretor do Odin Teatret), por exemplo, e temos a oportunidade de ver o seu teatro e talvez conhecer os seus atores é algo muito importante. Também abre as portas do mundo para o nosso trabalho'', conclui o bonequeiro Dardo Sánchez, do grupo argentino Atacados (...por el arte). Por sinal, um nome sugestivo para definir as tribos que passam pelo festival.

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