A música instrumental brasileira domina a programação de hoje do Festival de inverno de Londrina. Grupos com formações variadas se apresentam em diversos espaços, incluindo o Calçadão de Cambé e o Teatro Municipal de Ibiporã, duas extensões desta 25 edição do evento.
Os principais destaques vêm de Tatuí, cidade do interior paulista que se tornou um dos centros mais efervescentes de educação musical do País. De lá vêm os grupos Paulo Flores & Cambanda Jazz Combo e Quebrando o Galho, que se apresentam, respectivamente, no Teatro Ouro Verde, às 20h30, e no Calçadão de Cambé, às 17h30.
Paulo Flores, líder do Cambanda, participa do Festival também na grade pedagógica atuando como professor nos cursos ''Prática de Big Band'' e ''Arranjo e Composição para Grupos Musicais Heterogêneos''. Já esteve em Londrina em duas ocasiões felizes, nas quais venceu a extinta Mostra MPB Londrina na categoria música instrumental com as composições ''Espírito da Coisa'' e ''Dois Hemisférios''.
É provável que toque as duas composições hoje acompanhado no palco de João Paulo Barbosa, Richard Ferrarini, Síntia Piccin (saxofones), Cristiane Bloes (piano), Alexandre Bueno (guitarra), Felipe Brizola (baixo), Rodrigo Donato (bateria) e Everton Rodrigues da Silva (percussão). Flores é responsável pelas flautas, composições e arranjos.
A proposta da banda, segundo ele, é pesquisar, executar e divulgar a música instrumental de improvisação privilegiando ritmos brasileiros. Influências? ''Elas vêm da minha vida inteira. Comecei tocando violão como autodidata. Depois estudei piano, flauta erudita e voltei para o popular. Tudo me influenciou'' diz.
A banda está na terceira formação. ''O grupo foi montado com alunos num conservatório, em 1992, a partir das aulas de prática de improvisação. Depois, muita gente saiu e muita gente entrou. A primeira formação tinha mais integrantes, agora está mais enxuta. São mudanças boas, que servem para nos reciclar e renovar a energia'' ressalta.
Gravaram o primeiro CD, ''Rumo Norte'', em 1999. ''O segundo está em fase de mixagem e deve ser lançado no final do ano'' anuncia. Ele adianta que um dos destaques do álbum será a faixa ''Sexta'', feita em parceria com o violeiro Paulo Freire. ''Nesta música, eu conto um causo em vez de improvisar'' acrescenta. Paulo Flores critica com acidez o momento atual da cultura brasileira, atribuindo a origem da decadência ao ciclo da ditadura.
''O momento é de pobreza cultural'' salienta. ''Antes, a música instrumental tocava em rádio. E o choro e a Bossa Nova podiam ser ouvidas na TV. Depois, com a ditadura, esses elos foram quebrados. Os intelectuais e os melhores talentos tiveram que deixar o País. As escolas ficaram sem mestres. A triste realidade de hoje é resultado disso tudo, essa tristeza vem daquele tempo. Para quem tem filhos, é triste saber que as crianças vão à escola e lá ouvem Xuxa. Pra quê isso, se a mídia apresenta Xuxa o tempo todo? Escola não é pra isso, ela tem que ter um diferencial''.
Para o professor e compositor, é preciso redescobrir a cultura brasileira. Em Tatuí informa os músicos estão se voltando para a pesquisa do que melhor se produziu no passado, particularmente na área do choro. É o que tem feito o grupo Quebrando o Galho, outra atração do Festival e que se apresenta logo mais em Cambé.
Sua formação reúne Alexandre Bauab Jr (violão de 7 cordas), Altino Toledo (bandolim), Marcelo Cândido (cavaquinho) e Rodrigo Moura (percussão). Juntos há 12 anos, eles aliam a carreira convencional de músico (shows e gravação de discos) à de formação de novos instrumentistas ministrando aulas de instrumento e prática de grupo voltada para choro dentro do curso de MPB e Jazz do Conservatorio Dramático e Musical de Tatuaí.
Gravaram o primeiro CD, homônimo, a convite da instituição e da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo. O disco foi efusivamente saudado pela crítica. Uma das curiosidades sobre o trabalho é passar ao ouvinte uma audição fiel de uma roda de choro, com seus erros e acertos, livres dos truques usados em estúdios para limar as imperfeições.
O grupo participou também do CD ''Horn Brasil'', do trompista Adauto Soares, além de ter gravado três faixas para o CD ''Soleil'', da cantora francesa Clementine. Entre suas melhores apresentações ao vivo figura o concerto ''Retratos de Radamés Gnatalli para Bandolim e Orquestra'', acompanhado pela Orquestra Sinfônica Paulista e realizado há exatamente um ano no Festival de Inverno de Campos de Jordão.

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