FESTIVAL - A safra pouco inspirada de Gramado
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 19 de agosto de 2004
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Talvez não seja culpa da curadoria deste 32º Festival de Gramado. Talvez seja até uma questão de entressafra. É provável que sim. É preciso acreditar que sim, porque só uma explicação dessa natureza pode amenizar um pouco a perplexidade de quem esperava um panorama mais risonho e franco de nosso cinema agora, filmes curtos ou longos mais consistentes, enfim manifestações artísticas de um momento especial que vem marcando o reencontro do público brasileiro com as produções realizadas recentemente no país.
Os curtas vistos até agora não honram a condição privilegiada de oficina nacional de talentos, firmada aqui mesmo em Gramado durante as duas últimas décadas. Tecnicamente superiores aos modelos deste passado recente, por outro lado atestam que a criatividade tirou férias ou já não é a mesma. Parecem brinquedos de luxo a veicular a aridez de uma geração de jovens realizadores. E os longas, na mesma medida beneficiados por leis de captação que permitiram o acesso a tecnologias de ponta, têm se mostrado decepcionantes. Neste panorama, os documentários parecem não ser tão vulneráveis, enquanto os latinos alternam títulos mais ou menos interessantes.
Foi assim outra vez, na terceira rodada de atrações vesperais e noturnas. O documentário ''Mensageiras da Luz Parteiras da Amazônia'' dá conta do recado proposto e até extrapola o tema. O jornalista e cineasta Evaldo Mocarzel foi filmar no Amapá fascinado por uma informação: hoje, 10.400 (dez mil e quatrocentas) mulheres entre índias, caboclas, mestiças e brancas trabalham naquela região do norte do país, partejando as mulheres. É o maior índice. Elas criaram uma associação, já transformada em ONG. Mocarzel documenta com paixão há dois nascimentos ''a frio'' que impressionam pela total crueza e ausência de qualquer artifício esta intensa atividade que supre uma grave, alarmante falha do governo no campo assistencial. Mas não faz disso proselitismo. Deixa para o espectador tirar naturalmente esta conclusão, preferindo penetrar mais fundo na alma dessas ''mensageiras da luz''. Há ótimos retratos intimistas, captados em entrevistas ao longo do filme, que definem a vertente poética desejada.
O segundo longa latino, o português ''O Fascínio'', de José Fonseca e Castro, é um tortuoso labirinto narrativo sobre um imobiliarista que vê sua complicada vida mudar de rumo subitamente quando recebe inesperada herança de um tio-avô. É uma enorme propriedade, quase na fronteira com a Espanha. Assumir o imóvel significa também herdar fatos familiares enterrados lá pelos anos 1930, o que quer dizer mais complicações. Como um caseiro que sabe muito e sua filha bela e fugidia; velhas fotos, fantasmagóricas visões noturnas, assombrações fascistas e até um rastro de sangue, muito real para ser do século passado. E no presente há a ambígua mulher do novo herdeiro e o filho calculista. O filme, estafante, é baseado em romance do escritor gaúcho Tabajara Ruas, com a ação adaptada para Portugal. O diretor Fonseca e Castro já andou por Gramado em 1996 com ''Cinco Dias, Cinco Noites'', também complexo embora mais eficiente.
Há pouco mais de 50 anos Santa Catarina produzia seu primeiro longa-metragem de ficção, ''O Preço da Ilusão''. Surge agora o segundo. Melhor que não viesse, ou que viesse melhor. ''Procuradas'', apresentado na mostra competitiva, é assinado a quatro mãos, Zeca Pires e José Frazão, o primeiro estreante, o segundo veterano (''O Mistério do Colégio Brasil''). Parece que quanto mais mãos pior o resultado. Numa Florianópolis inteiramente de cartão postal, equipe de televisão filma documentário sobre prostituição de alto luxo. Durante a captação de depoimentos de garotas de programa, a diretora (Rita Guedes) fica sabendo que duas delas sumiram depois de saírem num veleiro com dois executivos. Começa uma investigação paralela, e o filme então se embaralha de vez em sua proposta de meta-cinema.
Mas não é o aspecto formal que incomoda mais. Em sua primeira metade, exatamente aquela das enquetes com muitas mulheres belíssimas, glamourosas e sedutoras, ''Procuradas'' acaba fazendo inconscientemente a apologia da prostituição. Há tanto dinheiro, luxo, conforto e boa vida no dia-a-dia das garotas que o apelo à novas adesões é quase irresistível. E então, na segunda parte, ao melhor estilo mea culpa, bate o moralismo para rimar pobremente com o machismo que se viu antes. Nesta colisão frontal, os danos são irreversíveis e o filme, até então claudicante, desaba de vez. Há impropriedades, disfunções diversas e uma dúvida que fica após os créditos finais: diante do filme, o que as autoridades catarinenses da área vão pensar, no momento em que recrudesce um movimento nacional de combate ao turismo sexual?
Na série de homenagens, Gramado aplaudiu ontem, alto e forte, a carreira de Tizuka Yamazaki, concedendo à cineasta gaúcha o Troféu Eduardo Abelin, instituído para reverenciar um pioneiro do cinema do Rio Grande do Sul. Nos agradecimentos, Tizuka recordou a importância que o Festival de Gramado teve para sua trajetória artística. Foi aqui, em 1980, que tudo começou: ''Gaijin Caminhos da Liberdade'', que obteve seis prêmios (melhor filme inclusive), abriu as portas para uma carreira que teve grandes momentos ao longo de duas décadas.


