Por que, nos últimos anos, você decidiu gravar discos ao vivo?
Numa certa época, percebi que os músicos estavam se orientando para a música eletrônica passando a ter mais intimidade com os estúdios do que com os instrumentos. Decidi ir contra a maré acreditando que o melhor que eu tinha para oferecer era retomar a estética dos discos dos anos 70, que eram gravados em estúdios jurássicos de dois ou, no máximo, quatro canais. Minha visão era de que eu tinha que voltar a tocar e gravar discos ao vivo partindo do pressuposto de que a música ainda pode ser tocada e não precisa ser editada.
Você acha que esse excesso na pós-produção acaba tirando a emoção da música?
Alguns músicos amigos meus ficam 15 dias dentro de um estúdio para acabar uma música de dois minutos. É estranho. Penso que toda música representa um sentimento que o artista teve, e fica difícil acreditar que o sentimento não vai embora quando se edita cada nota. As músicas ficam parecendo namoro virtual, de conversas através do computador. Eu sou da antiga, namoro pra mim é ficar junto da pessoa, é tocar quem você gosta. Por essa razão, gravei álbuns ao vivo com Charlie Haden, Nando Carneiro e Zeca Assunção e um solo no Teatro Colón, na Argentina. Gravei também um novo num monastério da Áustria que tinha uma acústica genial.
Esses discos são difíceis de encontrar nas lojas. Aliás, por que seus álbuns deixaram de circular normalmente no mercado brasileiro ao longo dos anos 90?
Porque, numa certa época, decidi comprar os direitos de lançamento dos meus discos junto à gravadora EMI. Eles deixaram de sair no Brasil porque passaram ao meu controle e, daí em diante, só saíram no exterior. Todos os títulos passaram a pertencer ao selo Carmo, que criei para lançar artistas brasileiros e meus próprios trabalhos. Agora, por que resolvi adquirir os direitos de comercialização dos meus discos? Porque nos shows que fazia pelo país, sempre ouvia as pessoas reclamarem que o som de tal disco estava ruim, que uma faixa pulava, que a fotografia não era boa, que a impressão não era legal...Essas queixas técnicas me deixavam muito chateado. Então, para ser coerente, decidi que tiraria meus discos do mercado e que só gravaria no exterior. Tudo com o objetivo de preservar a qualidade, que é uma característica que sempre me acompanhou a ponto de regravar algumas de minhas músicas por achar que o arranjo da primeira versão não tinha ficado bom. Foi, enfim, uma atitude correta, porque naquela época as companhias fonográficas faziam tudo a toque de caixa, sem se importar com a qualidade por estarem sozinhas no mercado. Foi só depois, quando surgiram os selos independentes, que elas tiveram que repensar seus produtos.
Isso explica o fato de seus discos estarem retornando ao mercado...
Saber esperar é uma coisa fundamental. O Beto Boaventura voltou a ser o presidente da EMI e isso mudou muita coisa. Neste ano, saiu uma caixa com três títulos meus remasterizados num projeto bacana que já está na terceira tiragem. E, há três meses, foi lançada uma antologia dupla produzida pelo Charles Gavin reunindo o melhor de minha produção. São trinta e poucas músicas que resumem a minha trajetória. Esse CD duplo está entre os 35 títulos mais vendidos nesta temporada.
E como vai o selo Carmo?
Todo o catálogo já é distribuído por uma multinacional no exterior. Contamos com 31 títulos.
Quais artistas fazem parte do selo?
Gravamos o pianista Luiz Eça, que se destacou nos anos 60. Tem o baterista Robertinho Silva, que participou de alguns de meus trabalhos e sempre tocou nos discos do Milton Nascimento. Há ainda o Nando Carneiro, que sempre me acompanhou para cima e para baixo, o Jacques Morelembaum, e vários outros. Estou esperançoso para que, finalmente, os discos desses artistas sejam lançados no Brasil.
Você ficou responsável pela trilha sonora do filme ''Gaijin 2'', de Tizuka Yamazaki, que foi rodado em Londrina. Como está o trabalho?
A trilha está pronta. Deve ser lançada junto com o longa no próximo ano. É um projeto de filme muito interessante, porque mostra o nascimento da cultura do grão no Brasil. Estive em Londrina duas vezes para conhecer os locais da locação. Depois do concerto, pretendo fazer uma caminhada na fazenda que serviu de cenário.

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