FESTIVAL - A guerra anti-Bush de Michael Moore
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 17 de maio de 2004
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Cannes, especial para a Folha 2 
Não estava no programa, mas na última hora a organização do festival decidiu ampliar a homenagem especial que preparou para celebrar os 40 anos do Cinema Novo. Como a retrospectiva não foi programada para o templo máximo do festival, o Grand Théatre Lumière, e sim para uma das salas menores do Palais, a BuÀuel, o cerimonial resolveu conduzir pela porta da frente o ministro Gilberto Gil, o presidente da Riocine, José Wilker, e o diretor Cacá Diegues, entre outros brasileiros. Eles subiram os legendários degraus cobertos pelo tapete púrpura, um dos emblemas de Cannes, e foram recebidos pelo presidente Gilles Jacob, pela diretora geral, Véronique Cayla e pelo delegado artístico, Thierry Frémaux. Em seguida, já na Sala BuÀuel, Gil & companhia foram saudados por Frémaux, que reforçou os laços que ligam o cinema brasileiro. Logo após, na abertura do ciclo, foi exibido ''Bye bye Brasil''.
Embora sem causar o mesmo furor quando aqui esteve há dois anos com ''Tiros em Columbine'' (distinguido pelo júri com um prêemio criado especialmente para ele), o documentarista Michael Moore está de volta com novo torpedo. Se anteriormente a denúncia foi contra a indústria americana de armamentos de fogo, o alvo agora é ainda mais específico, com nome, sobrenome, profissão e endereço fixo. Se depender de Moore, o presidente George W. Bush não só perde a eleição de novembro, mas qualquer cargo que disputar de senador a síndico de prédio de conjunto habitacional na periferia. Ontem foi dia de ver, com inegável prazer, a melhor peça de propaganda eleitoral que qualquer gênio de marketing jamais ousou criar: ''Fahrenheit 911'', dossiê completo não só surpreendente pelas provas que apresenta, mas aterrador e com o humor desta vez mais controlado sobre as origens desta sangrenta enrascada em que Bush Jr. meteu os Estados Unidos.
Há um subtítulo: ''a temperatura na qual a liberdade é queimada''. Moore obviamente se refere à tragédia de 11 de setembro, a quem o filme é dedicado, mas há também uma sugestão marota ao número telefônico de emergência nos EUA, o 911. Este provocador de Michigan, espécie de justiceiro corpulento e barbudo, não se cansa de denunciar o sonho americano em que ele parece ainda querer acreditar. Não é, portanto e nem de longe, um anti-americano. E nem poderia ser um ''traidor da pátria'' alguém que alinha uma série de evidências, instruindo um processo congestionado pelas mentiras de ''George da Arábia'', como Moore chama o presidente.
O cavalo de batalha deste documentário, levado em nível de seriedade e sobriedade mas aqui e ali entrecortado pela lâmina do humor cortante de Moore, são as relações oblíquas entre as famílias Bush e Ben Laden depois dos anos 1970, envolvendo interesses econômicos no valor de bilhões de dólares, o intermediário americano James R.Bath e o saudita Salem Ben Laden.
É claro que este é um ponto de partida e sustentação importante, mas é apenas um dos elementos deste filme que vai fundo na questão da invasão americana do Iraque, desde a paranóia pós 11 de setembro, implantada pelo governo Bush, até a perda estúpida de vidas de ambos os lados, passado por um certo oleoduto no Oriente Médio e pela situação econômica do país como fator de aliciamento dos jovens para ingressar no exército. Ao fundo, a figura patética de George W. Afinal, não faltam farpas também aos democratas, o que de certa forma retira de ''Fahrenheit 911'' o rótulo reducionista e injusto, por quê não? de peça eleitoral. Se o filme sair de Cannes com alguma premiação (e isto não é difícil), as coisas vão ficar mais fáceis para uma ampla circulação em território americano. Por enquanto, permanece o impasse entre a conservadora matriz Disney, que sabe o poder de fogo do filme caso ele chegue às salas e por isso não quer distribui-lo, e sua afiliada e produtora Miramax.
Em Cannes, momentaneamente longe do tiroteio, Michael Moore se divide entre o assédio implacável da imprensa mundial e as passeatas de protesto pela Croisette de braços com o animador político José Bové (aquele mesmo que há alguns anos andou pelo Fórum Anti-Globalização de Porto Alegre), gritando slogans contra a globalização e a situação dos trabalhadores franceses. Talvez saia daqui o argumento para mais um documentário.


