A partir da próxima terça-feira, Londrina está convidada a dançar. As luzes iluminarão palcos e salas do Cine-Teatro Ouro Verde, do Circo Funcart, da Escola Municipal de Dança, da Escola Municipal Atanázio Leonel, da Trup Estúdio de Dança e até mesmo da Concha Acústica, na região central, para que o Festival de Dança de Londrina - 2003, que segue até 3 de agosto, brilhe, apresentando 64 grupos em 179 coreografias e realizando oficinas, cursos, workshops, palestras, mesa-redonda e mesmo um bate-papo com adolescentes a respeito, é claro, da dança. A configuração do Festival brinda tanto os aspectos mais tradicionais, quanto os mais modernos do espetáculo, mostrando assim o multifacetado momento vivido por uma arte que remonta ao longínquo passado e que se estruturou, no decorrer do tempo, como exclusividade da elite.
''No mundo de hoje, é possível detectar a falência do modo de dança anterior'', afirma Leonardo Ramos, diretor da Escola Municipal de Dança e coordenador do Festival. ''A elite abandonou o balé como forma de completar a educação dos filhos, substituindo-o pelo inglês e pela computação'', comenta, revelando que essa mudança de foco aproximou a dança do cidadão comum e de uma nova compreensão de seu potencial como ferramenta do trabalho social. Em paralelo, pontas, passos e posturas tradicionais foram reavaliados ou se desdobraram em diferentes perspectivas, ampliando infinitamente o que, até então, era restrito. ''Atualmente'', confirma Leonardo, ''balé também é provocação''.
A provocação, no entanto, nem sempre está no espetáculo. Pode vir antes, na ''costura'' de linguagens que antigamente eram utilizadas apenas em monólogos. Sob esse ângulo, faz todo o sentido que o Festival se proponha a relacionar o balé, por intermédio de cursos e oficinas, a práticas circenses ou a técnicas de interpretação e de ações físicas, típicas do teatro. Também a partir da mesma perspectiva, torna-se válido permeá-lo com manifestações artísticas consideradas mais populares, como a dança de salão, ou mesmo da moda, o caso da ''street dance''. Vale ainda incluir no Festival ou ensejar, por meio dele, um diálogo com outras vertentes da cultura, abrigando, no decorrer do evento, de lançamento de livro e CD a exposição de pintura e show musical.
A idéia de realizar o Festival, contudo, surgiu naturalmente e o porte amplo e variado que assumiu acabou surpreendendo até mesmo seus promotores, o Curso de Artes Cênicas e a Casa de Cultura da UEL, mas notadamente a Associação dos Profissionais de Dança de Londrina e Região Norte do Paraná, de onde a ousadia partiu. Como lembra o presidente da Associação, o bailarino, coreógrafo e professor de dança clássica Wagner Rosa, ''quando nos apresentamos em Cuba com o Ballet de Londrina, por volta de 1997, trouxemos de lá a idéia de reproduzir na cidade o ''chá de domingo à tarde'', que eles realizavam no Teatro Nacional, reunindo amigos para conversar sobre dança e apresentar trabalhos'', conta Wagner.
Em Londrina, o ''chá de domingo'' virou ''Tardes de Dança'', com os mesmos propósitos, lotando uma vez por mês, durante um ano, uma sala de aula da Escola Municipal de Dança. ''De repente'', conta Wagner, ''não cabia mais ninguém na sala e tivemos de ampliar o espaço e a idéia, com o ''Conexão Dança'', realizado mensalmente na Funcart até o fim do ano passado e que, dada a quantidade de interessados, exigia até pré-seleção dos grupos que participavam''. Os resultados diretos dessas experiências de sucesso crescente e do intenso intercâmbio que elas propiciaram puderam ser visualizados, num primeiro momento, na organização da própria Associação de Profissionais de Dança e, num segundo, na instituição do Festival.
O período definido para a realização do evento tem mesmo tudo a ver com o Festival de Dança de Joinville, que termina hojeo. ''Acreditamos que seria mais fácil para os grupos que estão saindo de Joinville passarem por aqui, antes de voltar para casa'', explica Wagner. As proporções, naturalmente, são muito distintas, já que o Festival catarinense está da 21 edição, conta com um orçamento de 1 milhão e 900 mil reais, e é considerado um dos maiores do mundo, em volume de participantes, reunindo cerca de 4 mil pessoas só entre alunos e profissionais de dança em 10 dias de evento. Na primeira edição do Festival de Londrina, aguardam-se, de acordo com Leonardo Ramos, ''cerca de 800 bailarinos e professores, estimando-se que outras 400 pessoas desloquem-se até a cidade para assistir aos espetáculos ou participar das oficinas''. Números mais modestos, contudo, não vão impedir um vigoroso movimento na rede de serviços e de comércio local. ''A dança agrega valores'', diz Leonardo, ensejando demandas e consumo nas mais diferentes áreas.
Porém, de acordo com Leonardo, ''o empresário londrinense ainda não tem essa visão de marketing'' e acaba deixando de apostar em eventos assim, como comprova o exíguo orçamento do Festival de Dança, de aproximadamente R$ 60 mil, conseguido por intermédio do Programa Municipal de Incentivo à Cultura de Londrina (Promic) e da Fundação Araucária, e o reforço de alguns apoios institucionais, como o do Shop Ballet, ARATEL, EDUEL e Folha de Londrina. A estrutura pode ser modesta, mas a ambição de crescer é grande. Não existe, no entanto, um lugar definido aonde ir. Na dança, aliás, a liberdade de movimentos é essencial, sob pena de se perder algo importante pelo caminho, pois, como diz Leonardo Ramos, ''o dia em que a arte chega a algum lugar, ela não é mais arte''.

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