Festivais têm que avançar
PUBLICAÇÃO
sábado, 17 de março de 2001
Zeca Corrêa Leite De Curitiba 
O ator Luis Melo, que esteve no Festival de Teatro de Curitiba em Nova Velha História, como um inesquecível Lobo Mau, prisioneiro de Chapeuzinho Vermelho, em Veredas da Salvação e no comovente monólogo Nijinsky, afirma que os festivais de teatro brasileiros são ainda muito novos. Falta o peso dos anos para lhes dar feição com uma personalidade acabada.
A importância maior que vejo nesses eventos é a criação de público para teatro e a criação de referenciais dos mais diversos possíveis para que o público consiga ter uma opinião a respeito das diversas formas de se fazer teatro e perceber, num senso crítico, aquilo que está indo assistir.
Melo afirma que dá para sentir uma evolução no crescimento do público para essa arte, mas ainda é necessário um trabalho direcionado especialmente à produção local, para que as platéias apoiem os espetáculos realizados no transcorrer do ano e não compareçam somente nos dez dias de festival, atendendo ao apelo de um modismo fugaz.
Luis Melo não vê importância alguma num evento que se situa apenas para incrementar o calendário artístico-cultural. É preciso ir além, influir na comunidade. Essa é a função do festival, diz. Existem pitadas, existem caminhos, há uma efervescência durante o festival, mas os resultados por esses dez anos ainda não aconteceram.
Um exemplo de como a comunidade pode se beneficiar e alterar seu perfil é o grande festival de teatro de Edimburgo, que inspirou a criação do Fringe no FTC. A partir dele, a Bélgica despertou para a dança contemporânea e hoje é uma referência internacional nessa arte.
Em sua avaliação, o ator coloca como elemento de vital importância neste contexto a participação da classe artística. Através dela é que será possível fomentar e tornar Curitiba um celeiro de criação e não apenas local de amostragem de teatro. Dividindo seu tempo entre a escola que inaugurou este ano em Curitiba e o Rio de Janeiro, Melo está mais enfronhado com a vida cultural da cidade. Daí suas considerações que enfeixam o papel do FTC e da comunidade teatral como um todo: Uma das coisas que observo em Curitiba é que muitas vezes a própria classe não prestigia ou não comparece aos eventos. Já fui a alguns, como por exemplo o de dança com Marila Andreazza, sobre a dramaturgia do corpo. Evento maravilhoso sobre a tendência da dança contemporânea, do bailarino criar a própria dramaturgia do corpo. Teve muito pouca gente de dança, de teatro, de artes do Paraná. Às vezes sinto isso também no Festival de Teatro de Curitiba: a própria classe artística não o frequenta. Acho que tanto a organização do Festival como a própria classe tem que confiar e arriscar mais.


