Festas juninas celebram a fertilidade
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quarta-feira, 05 de junho de 2002
Lilian Primi<br>Especial para a Agência Estado 
Renascidas nas escolas ou transformadas em grande espetáculo para turistas nas regiões mais pobres do país, as festas juninas continuam sendo um grande e alegre ritual em busca da fertilidade. A maior e mais famosa do Brasil acontece anualmente em Campina Grande, no Estado da Paraíba.
Nos gestos e tradições repetidos até hoje pelos participantes, há muito mais do que folclore ou crença. Há a história dos povos. A fogueira pagã foi santificada pelo cristianismo que, incapaz de acabar com as festas impuras, incorporou a tradição e elegeu São João para substituir June ou Hera a deusa que também é mãe.
João Batista, o profeta que passou toda a vida anunciando a chegada do messias, teria nascido no dia do solstício de verão europeu, 24 de junho, exatamente o dia em que eram realizadas as festas pagãs. Santo Antônio, que comanda a festa no dia 13 de junho, entrou por mãos e devoção dos portugueses. São Pedro, acompanhado por São Paulo, foi trazido mais tarde pela tradição católica e fecha o mês, regendo as festas do dia 29.
A tradição das festas juninas chegou ao Brasil com os jesuítas, que pretendiam atrair os gentios da terra para o cristianismo. Além de ser um ritual forte e alegre, com tudo o que parecia agradar aos índios, as festas da fertilidade européias tinham estranhas e improváveis coincidências com os rituais indígenas: também os índios acendiam fogueiras, comiam, cantavam e dançavam para os deuses em junho.
Mesmo em hemisfério oposto, os sul-americanos também vivem um período de fartura nesta época final da colheita de verão e abundância de caça e peixe e também estão preparando o solo para o plantio. A coivara o uso do fogo para limpar a terra dos restos da cultura anterior, ou do mato, prática condenada por destruir nutrientes do solo e poluir é feita neste período, como parte dos rituais que vão garantir o alimento do próximo ano.
Se na estrutura da festa há história, nas simpatias realizadas nestes dias, principalmente nas que são feitas para alterar ou adivinhar o comportamento do clima, pode haver resquícios da antiga física pré-científica, assim como a antiga medicina está presente nos tratamentos das rezadeiras e curadores. E muito mais.
Frei Francisco van der Poel, o Frei Chico, há 10 anos recolhe, com a ajuda de Lélia Coelho Frota, informações para o Abecedário da Religiosidade Popular. Diz que a simpatia ainda é um assunto difícil de ser definido. As procissões, realizadas incansavelmente pelos nordestinos agastados pela seca que em várias ocasiões se arrasta por anos nesta região, podem ser consideradas simpatias, da mesma forma que os pacotinhos de sal colocados no sereno, para tentar saber em que mês do ano que se segue haverá chuva, ou seca.


