Salvador, 25 (AE) - A sexta edição do festival Panorama Percussivo Mundial - Percpan - começou na noite da quarta-feira de forma espetacular e confusa, na rua, com um desfile das atrações em direção à Praça Campo Grande. Era intenção dos diretores, Naná Vasconcelos e Gilberto Gil, promover uma grande festa popular, gratuita. A chuva forte que caiu um pouco antes do início do desfile deve ter diminuido o ânimo dos possíveis espectadores. O festival vai amanhã (26) para sua terceira noite, a partir de hoje no palco do Teatro Castro Alves. Amanhã se apresentam Maria Bethânia, o indiano Zakir Hussain (com mestres da percussão da Índia), os haitianos do grupo Ayabonmbe, o brasileiro Carlos Tarcha. Encerram a noite os tambores de crioula do Maranhão, com o compositor Zeca Baleiro fazendo as vezes de mestre.
O Percpan é um festival único, sem ligação com a indústria cultural. A intenção, esclarecida no nome, é reunir os tambores do mundo. Beth Cayres, uma socióloga, quis, para uma tese acadêmica, examinar as semelhanças e diferenças dos toques dos tambores. A tese virou festival. O percussionista pernambucano Naná Vasconcelos, embaixador internacional dos tambores, assumiu a direção. Gilberto Gil passou a dividir a responsabilidade com ele na terceira edição.
Na abertura deste ano, pela primeira vez o festival trocou o teatro pela rua. Era intenção antiga dos organizadores. Foi bonito, surpreendente, mas difícil de acompanhar. O desfile, até a Praça Campo Grande, começava com os pernas-de-pau da Cia. do Teatro dos Novos, núcleo do Olodum, batendo em baldes de plástico, tubos de PVC, canos de alumínio, panelas.
Vinham depois os baianos do Muzenza, com seus bonecos, e os também baianos do Malê, os homens com os tambores, as mulheres dançando. Em seguida, os índios norte-americanos do Silvercloud Singers e, depois deles, os índios brasileiros camaiurás, tendo à frente o cacique Sapaim. A seguir, os meninos e meninas do grupo Evocação, de Pernambuco, em nome do maracatu, e em seguinda os percussionistas e as dançarinas dos tambores de crioula, do Maranhão.
Sem os instrumentos, tão pesados que não podem ser carregados, desfilavam os tocadores dos tambores sagrados do Burundi, da áfrica. Fechando o desfile, soprando cornetas semelhantes a funis, seguiam os haitianos do Ayabonmbe. Reuniram-se todos na praça, sobre pequenos palcos. Grupo por grupo, fizeram rápidas apresentações. Uma marca de batatas fritas industrializadas distribiuiu seu produto. A platéia acompanhou o ritmo dos tambores centenários do Burundi batendo as embalagens. É intraduzível a ironia da imagem. Hino - Gilberto Gil compôs, um pouco antes do desfile, a música que encerrou a noite, na voz de todos: "Panorama percussivo, ê/ Das janelas da cidade, ô/ Vou passar um telegrama, ê/ Pra avisar minha saudade, ô/ Minha saudade, ê, mama áfrica/ Minha saudade, ô, mama Índia/ Minha saudade, ê, mama Europa/ Minha saudade, ô, mama América". Traduziu, em pouquíssimas palavras, a nostalgia do desterro e o encantamento da pluralidade.

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