Festa literária - extrapola a literatura
PUBLICAÇÃO
sábado, 07 de julho de 2007
Ewaldo Schleder<br> Especial para a Folha2 
Rumo à V Festa Literária Internacional de Parati (FLIP), embarco em um ônibus de São Paulo para a histórica cidade do litoral fluminense. Isto depois de seis horas de viagem a bordo de outro também confortável coletivo rodoviário, desde Curitiba. Repete-se o mesmo tanto de estrada, na descida da Serra do Mar. Este último trecho parece passar mais rápido do que marca o relógio - redescubro que o tempo e a distância quase não doem quando o motivo é festa - especialmente pela trilha incidental do destino: sento-me ao lado de um dos prêmios Nobel?
Não, todavia de alguém que está para lançar o seu livro na Off FLIP. O nome dela é Lalada Dalglish, autora de Noivas da Seca - Cerâmica Popular do Vale do Jequetinhonha. A escritora é mineira, de Pato de Minas, e leciona arte na Universidade Estadual Paulista ''Júlio de Mesquita Filho'' (UNESP). Melhor assim do que viajar ao lado de um gênio do qual por enquanto não li livro algum. E duvido que houvesse companhia melhor.
O livro é uma edição de parte de sua tese de doutorado. As imagens são do artesanato de mulheres daquela região, conhecidas como viúvas da seca. O apelido se deve ao fato delas perderem os maridos, praticamente, os quais se evadem do Jequetinhonha para trabalhar, a maioria, na construção civil em São Paulo.
Tema este, aliás, trabalhado magistralmente por Adoniran Barbosa, em Saudosa Maloca. Drama brasileiro operístico, a música tem letra a explicar essa pérola de nossa antropologia: o homem deixar a família, o sertão, a seca, as incertezas, com a esperança de começar o sonho como pedreiro na cidade grande.
Parati, local do grande encontro literário, uma pequena cidade de cerca de 30 mil habitantes, recebe neste ano mais de 10 mil turistas da literatura. Iniciada na última quarta-feira, com show que incluiu a pianística de João Donato, um dos magos da Bossa Nova. Com mais 15 pessoas no palco, Donato e sua serena melodia deu o tom da festa.
A cidade e seus moradores recebem com afabilidade os visitantes, pois estes impulsionam a economia e justificam os investimentos para trazer renomados escritores do Brasil e do exterior, a incluir 2 prêmios Nobel (os sul-africanos J.M. Coetzee e Nadine Gordimer). Entre os brasileiros, quase todos os escritores aportaram trazendo na cabeça o cronista e dramaturgo Nelson Rodrigues, autor homenageado em 2007.
Por toda parte pousadas, bares, praças, esquinas, se respira arte. A programação oficial e a paralela previram, para a festa literária - desde o dia 4 até hoje - shows musicais, debates, palestras e exposições. Tudo sob as lonas de grandes tendas brancas.
Na Praça da Matriz, a presença de crianças e adolescentes formou um panorama significativamente insólito, em termos de Brasil. Eu, pelo menos, nunca tinha visto um pé de livros, e você, paciente leitor? Pois ali se vê livrinhos, livros e livrões pendurados por cordinhas nas árvores da praça.
Entre os bancos e a vegetação antológicos personagens de escritores, como Monteiro Lobato (Narizinho, Emília, Pedrinho etc), Ziraldo, Viriato Correia (alguém se lembra do Cazuza, o comedor de terra?), e não só da literatura infantil, por assim dizer, mas também de Machado de Assis, Guimarães Rosa, Euclides da Cunha e outros.
Há pouco fiz referência a algo denominado Off FLIP. Este é o nome da programação dita paralela, que a exemplo de outros eventos artístico-culturais também apresenta um programa de alta qualidade. Lalada, minha companheira de viagem, está nessa agenda.
Antes do show de abertura concerto da Orquestra Imperial que convidou João Donato, a crítica de teatro, ensaísta, professora e tradutora Bárbara Heliodora homenageou Nelson Rodrigues.
Uma regata de 20 barcos abriu a Flipinha assim se chama a FLIP infantil. A Flipinha, evento direcionado aos estudantes da cidade encantou as crianças com histórias e personagens infantis. Horas antes da festa oficial começar, a algazarra dos pequenos alegrava Paraty.
Uma parceria do Museu da Pessoa com a Flipinha, braço educativo da FLIP, visa registrar o patrimônio imaterial de Parati. O museu quer registrar o que mudou na vida dos paratienses depois da FLIP e gravou depoimentos dos moradores. Um de seus grandes projetos é o Memórias da Literatura, um programa diário de rádio que reúne depoimentos, opiniões e a crítica não-especializada de amantes dos livros.
Histórias como a do pedreiro apaixonado por literatura que criou uma biblioteca sozinho ou de um taxista gaúcho que escreve inspirado em seus passageiros. Em Parati, o museu pretende ouvir os participantes da FLIP sobre a obra de Nelson Rodrigues.
Espontaneidade, bom humor e alguma apreensão dos convidados, ainda pouco habituados a estar diante de um público numeroso, foram os destaques da primeira mesa da V FLIP, composta por três jovens escritores: o poeta paulista Fabrício Corsaletti, a contista gaúcha Veronica Stigger e a romancista carioca Cecilia Giannetti. A mediação foi de Beatriz Resende, professora de literatura da UFRJ.
''Eu tenho uma inveja dos cantores. Eles fazem tchurubimbum no meio da música...'', disse o poeta Chacal, logo no início de sua fala. Ele participou da mesa Uivos, ao lado de Lobão, com mediação do jornalista Marcos Augusto Gonçalves. Os dois se conhecem de longa data e descontração não faltou no bate-papo entre os autores. Outros escritores brasileiros estiveram em Paraty: Fernando Morais, Rui Castro, Paulo Lins; além do moçambicano Mia Couto, do argentino morador de Barcelona, Rodrigo Frésan.
Contudo, nem só de literatura vive a FLIP de 2007 e seu em torno. Outras artes também se sobressaem. A arte plástica, com seus bonecos de papel machê a representar personagens da literatura. A música, com shows diários, que puderam ser vistos e ouvidos, além do seu espaço especial, nos telões gigantes espalhados pelo centro histórico paratiense. A fotografia, com a exposição paralela na galeria Zoom, O lugar do escritor.
O fato do autor homenageado (Nelson Rodrigues) escrever peças de teatro ampliou a reflexão sobre a arte dramática. Augusto Boal, Eduardo Tolentino, Ana Maria Gonçalves, Arnaldo Jabor, Leyla Perrone-Moisés, Mário Bortolotto, entre outros, aprofundaram análises sobre peças de Nelson, como Perdoa-me por me traíres, A vida como ela é e outras.
O último citado, Mário Bortolotto, paranaense de Londrina radicado em São Paulo, apresenta-se junto com Bosco Brasil, autor teatral e de TV, na mesa Sem drama - o próprio nome já explica: tocar na medula das vertentes teatrais. Bate o telefone. Atendo. É o Mário Bortolloto. Perdoe-me leitora, desculpe-me leitor, mas vou atender e marcar uma entrevista com ele. Aguarde, por favor.


