Volta e meia, o universo caipira permeia a teledramaturgia. E, quase sempre, ele traz certa leveza e ingenuidade às histórias. Não é de se admirar que a temática ganhe ainda mais força em tempos de crise político-econômica. Afinal, quando a realidade está "pesada" demais, o desejo de assistir a produções televisivas que permitam "sonhar" aumenta. Basta observar a aposta recente em novelas como "Meu Pedacinho de Chão", "Êta Mundo Bom!" e "Velho Chico", entre outras. Além de exemplos mais antigos, como "Cabocla", "Rei do Gado" e "Bicho do Mato", esta última da Record.
Estreando amanhã na Globo, "Êta Mundo Bom!" promete transportar o espectador à atmosfera romântica da década de 1940, em pleno interior de São Paulo. "Antigamente o cotidiano era mais simples. Não aconteciam tantas coisas, as pessoas paravam e ouviam a radionovela, por exemplo. É um outro ritmo e isso desperta um saudosismo", acredita o diretor Jorge Fernando.
De forma mais fantasiosa, "Meu Pedacinho de Chão", de 2014, resgatou o conto de fadas. Tudo na novela de Benedito Ruy Barbosa era lúdico e irreal. Desde as árvores revestidas de latas enfeitadas aos bichos feitos de madeira. E a história se passava na fictícia Santa Fé, uma cidade do interior que era palco de disputas de terras entre o Coronel Epa e Pedro Falcão, interpretados, respectivamente, por Osmar Prado e Rodrigo Lombardi. Mas o tom leve predominava. Ainda mais porque a trama era contada através do ponto de vista de duas crianças. "Ao contar a história pelo olhar da criança, reafirmamos valores que, aos poucos, vão se perdendo quando nos tornamos adultos", explica Benedito.
Escrever tramas rurais, aliás, é marca registrada do autor. Tanto que ele já foi responsável por outros sucessos com a mesma temática, como "Renascer", de 1993, e "O Rei do Gado", de 1996. A "pegada" mais realista dessas novelas também agradou ao público na época da exibição e anos mais tarde. Quando foram reprisadas, ambas obtiveram boa audiência. "No caso de 'O Rei do Gado', acho que a história é um pouco mais popular. A partir de uma novela que fala do interior, a gente acabou captando o que afligia a política e a economia do País", recorda o diretor Luiz Fernando Carvalho, que volta a trabalhar com Benedito em "Velho Chico", próximo folhetim das 21 horas.
Com as tramas bíblicas a seu favor, mas pouca organização e estratégia, a Record ainda não "bateu o martelo" em relação à data de estreia de "Escrava Mãe". Escrita por Gustavo Reiz, a novela é uma espécie de prólogo de "Escrava Isaura", que a emissora exibiu em 2004. Portanto, o ambiente rural faz parte de toda ambientação da história. Além disso, a novela marca a estreia de Gabriela Moreyra como protagonista. "Não penso nesse rótulo, mas no volume de cenas e a responsabilidade", diz a atriz.

Aparatos caipiras
O simpático universo caipira fica registrado em outras áreas que vão além da história de uma novela. Como na cenografia e na preparação do elenco. Em "Cabocla", exibida pela Globo em 2004, por exemplo, o cenógrafo Mário Monteiro precisou encontrar um jeito de diferenciar as fazendas dos coronéis rivais da trama. A propriedade de Boanerges, de Tony Ramos, ganhou um ar rústico e acolhedor. Já a fazenda de Justino, de Mauro Mendonça, tinha de ser mais sofisticada. "Uma pessoa mais humilde se sentiria totalmente intimidada ali. É uma casa que você tem de pedir licença para entrar. Como o cenário precisava transmitir essa ideia, era mais suntuoso", revela o cenógrafo.
O estudo da prosódia também é comum para atores que precisam assumir um sotaque caipira no ar. Débora Nascimento terá de falar com o "r" bem arrastado na pele de Filó, em "Êta Mundo Bom!". "É bem regional. Parece que não existe, mas existe. O povo fala assim mesmo", garante a atriz. (L.B.)

Instantâneas
# "Bicho do Mato", novela exibida pela Record em 2006, contava a história de Juba, de André Bankoff, que foi criado em uma fazenda no Pantanal, junto à natureza e a uma aldeia indígena.
# A Globo "engavetou" uma novela que teria como personagem principal um cantor sertanejo.
# A trilha sonora de "Êta Mundo Bom!" é formada por sucessos dos anos 1940. Terá músicas originais nas vozes de Ângela Maria e Emilinha Borba e regravações com Paula Fernandes e a dupla Victor & Leo.

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