Festa de tambores em clima de ópera
Grupos nacionais e internacionais fazem memorável apresentação na abertura oficial do Festival de Percussão, em Salvador
DivulgaçãoGilberto Gil na ‘‘Noite dos Tambores Silenciosos’’: abertura do Percpan 99 aconteceu anteontem nas ruas de Salvador
Antônio Mariano Júnior
A primeira impressão foi boníssima. Portanto, tudo leva a crer que a sexta edição do Panorama Percussivo Mundial, o Percpan, que acontece até amanhã em Salvador, será memorável por dois motivos. O primeiro pela riqueza e diversidade musical. O outro, pela preocupação maior com a parte cênica do evento. A abertura aconteceu anteontem à noite, na Praça Campo Grande e foi acompanhada por um pequeno mas interessado público que não se intimidou com a ameaça de chuva que pairava sobre o céu da capital baiana.
A apresentação ganhou ares de ópera ao ar livre com um elenco formado por dez grupos, dos quais oito nacionais, comandados por Gilberto Gil e Naná Vasconcelos, diretores musicais do Percpan. A performance recebeu o nome de ‘‘Noite dos Tambores Silenciosos’’, uma adaptação de encontro de maracatus que acontece durante o Carnaval de Recife. ‘‘O que fizemos aqui foi uma confraternização musical em que se silenciam os tambores de guerra’’- analisa Naná Vasconcelos, idealizador da ‘‘ópera’’.
A emoção começou a contagiar a todos quando Gilberto Gil reuniu alguns integrantes dos grupos nacionais, no saguão do hotel onde todo o elenco está hospedado, para apresentar a belíssima ‘‘Percpan’’, música feita especialmente para o evento. Numa roda Gil cantarolou sua mais nova cria, uma singela canção encoberta por uma letra simples mas tocante. Até hóspedes do hotel acabaram entrando no ritmo da festa.
Porém, foi na concentração de todos os grupos, no Passeio Público de Salvador, que se pôde ter uma idéia do espetáculo que iria invadir a Praça Campo Grande logo mais. Um dos momentos mais marcantes foi quando o pajé Sapain, da tribo Camaiurás, localizada no alto Xingu, convocou Gilberto Gil e Naná Vasconcelos para um ritual de ‘‘limpeza’’.
Atentos a tudo, os integrantes do grupo Tambores do Burundi - principal atração internacional do Percpan 99 - voltaram grandes olhos quando o grupo baiano Malê começou a bater fortemente seus instrumentos. Do outro lado, o grupo Tambor de Crioula, do Maranhão, reunido numa roda, sob rígida observação de Mestre Leonardo, se aquecia cantando e dançando.
Exatamente às 19h40 os grupos deixaram a concentração e seguiram até a Praça Campo Grande, num percurso de quase 500 metros. O trânsito da Avenida 7 de setembro foi interrompido. Muita gente saiu para ver o que estava acontecendo. Parecia um desfile de escola de samba. No meio dos integrantes, Gilberto Gil, vestido com os trajes do bloco Filhos de Gandhi, e Naná Vasconcelos, com um tambor nas mãos, eram pura demonstração de alegria.
À frente do cortejo, 28 atores e percussionistas dos grupos Vila Velha e Issucatassom, todos com pernas de paus e inusitados instrumentos percussivos (baldes de plástico, panelas, tubo de conexão, bambus, enxadas, entre outros) pediam passagem. A parte cênica da abertura ofical teve direção de Márcio Meirelles, do grupo de teatro Olodum.
E com apenas dez minutos de atraso do que foi inicialmente divulgado, ou seja, às 20h10, os grupos chegaram à Praça Campo Grande onde cada um se acomodou nos respectivos palcos lá montados. Cada apresentação durou cerca de dez minutos. Com seus imensos e pesados instrumentos feitos com troncos de árvores de onde saem sons magníficos, os músicos do grupo Tambores do Burundi foram a atração mais aplaudida. De lá, a caravana seguiu para as portas do Teatro Castro Alves. ‘‘Deu uma certa apreensão sim, mas acabou sendo muito bacana’’- confessou Gilberto Gil após o encontro. E foi mesmo.
Hoje, terceiro dia do Percpan, as atrações, no Teatro Castro Alves, ficam por conta de Maria Bethânia, o indiano Zakir Hussain, Gilberto Gil e o grupo haitiano Ayabonmbe, o percussionista Carlos Tarcha e o cantor e compositor Zeca Baleiro com o grupo Tambor de Crioula do Maranhão.
O jornalista Antônio Mariano Júnior viajou a Salvador a convite da organização do Percpan.

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