São Paulo, 15 (AE) - São, por enquanto, três filmes do Dogma, assinados pelos diretores que firmaram o documento de 1995. Os três estão acessíveis para o público que quiser conferir o decálogo dos diretores da Dinamarca. Nunca é demais lembrar que eles definiram o Dogma como um voto de castidade. "Mifune", de Soren Kragh-Jacobsen, estréia amanhã (16), "Os Idiotas", de Lars Von Trier, segue sua carreira no Espaço Unibanco, e "Festa de Família", de Thomas Vinterberg, pode ser encontrado nas locadoras numa distribuição da Cult (no começo de agosto sai o DVD, lançado pela Versátil Home Vídeo). Na verdade, já são cinco os filmes do Dogma: o quarto, em produção na Dinamarca, é "The King Is Alive" e o quinto, feito na França por Jean-Marc Barr, é "Lover" (que será exibido na Mostra Internacional de São Paulo).
Em entrevista, o diretor de teatro Antunes Filho define Vinterberg como um Nélson Rodrigues à dinamarquesa, vendo em "Festa de Família" um parentesco, mesmo que distante, com o grande dramaturgo brasileiro. Vinterberg, como Rodrigues, traça um verdadeiro compêndio de neuroses familiares, com personagens incestuosos que vivem na fronteira da omissão ou da culpa. Essa é só uma de suas influências. A outra é a de William Shakespeare
o genial bardo inglês. A história de "Festa de Família" assemelha-se, mesmo que vagamente, à de um certo príncipe dinamarquês que, no começo do século 17, pronunciou uma frase célebre que, desde então, vem desafiando a erosão do tempo: "Ser ou não ser".
Não é o dilema hamletiano que move o protagonista de "Festa de Família", mas ele não é alheio ao problema. Edipiano (como Hamlet), o herói volta para casa em plena festa de aniversário do pai para denunciar os podres que ainda reinam na Dinamarca. Chama-se Christian esse herói, como que a reforçar o caráter cristão do Dogma, cujos signatários se definem como monges-cineastas. Isso só poderá causar espanto a quem se esqueceu de que a Dinamarca é a terra de Carl Theodor Dreyer, um dos mestres da espiritualidade no cinema, autor, entre outros clássicos, de "A Paixão de Joana dArc" e "Dies Irae". Para reforçar a aproximação com Hamlet, Christian também se defronta com um fantasma: o da irmã. Juntos sofreram abuso sexual por parte do pai. A mãe foi conivente, silenciando em nome da unidade familiar. Continua omissa quando a verdade vem à tona.
De certa maneira é um filme sobre as máscaras da convenção social que caem para revelar a verdadeira face das pessoas. Realizado segundo os preceitos do Dogma, o filme impressiona não só pelo que diz, mas também pela forma como diz. Estilisticamente, pode ser definido como um Robert Altman filtrado por Dreyer. Do cineasta americano, traz o método de soltar a câmera entre numerosos personagens, uma fórmula que Altman aperfeiçoou a partir de Nashville, mas que, a bem da verdade, nem é de dele, pois foi aplicada antes pelo Luis Buñuel de "O Discreto Charme da Burguesia". Do mestre dinamarquês, herda o rigor e a complexidade dos personagens, a convicção de que cada pessoa carrega em si a dualidade do bem e do mal.
Embora entusiasmado, Antunes Filho não é o único admirador que o Dogma colheu entre diretores brasileiros de teatro e cinema. Domingos Oliveira (de Amores) também ficou tão encantado por "Festa de Família" que chega a ponto de definir a fotografia do filme como a melhor do cinema nos últimos anos. Sinal de que a volta às origens do cinema, num movimento naturalista antiilusionista, preconizada pelos diretores dinamarqueses, não representa em absoluto o empobrecimento técnico que o inglês Peter Greenaway denunciou em entrevista ao jornal "O Estado de S.Paulo". Representa mais um movimento de austeridade em busca da essência das coisas, tal como o vê Antunes Filho.
"Festa de Família" é um filme radical, na forma e no conteúdo. E o Dogma, no seu radicalismo, talvez seja a alternativa mais interessante contra Hollywood nestes tempos em que globalização, no cinema, quer dizer a massificação dos efeitos especiais da indústria americana. (L.C.M.)

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