Fes, a mais antiga das cidades imperiais do Marrocos, com seus 500 mil habitantes, não é menos encantadora. A primeira diferença com Marrakech é logo percebida. As ruas da medina são mais limpas, e como não há um palco natural para as apresentações de artistas, como na Praça Djemaa El-Fna, têm-se a impressão de que é um lugar mais tranquilo.
A cidade, fundada no ano 789 pelo imperador Idris II, transformou-se ao longo dos anos em pólo de atração de intelectuais e artistas de todo o tipo, especialmente artesãos. A intensa atividade deles é um destaque do lugar.
Fes, que tem a maior medina do país, respira o Alcorão. A cidade é coalhada de madrassas, que é como são chamadas as escolas religiosas que ensinam o livro sagrado do islamismo. Existem aqui 410 mesquitas, 320 delas dentro da cidade antiga, um labirinto formado por 15 mil ruas.
O trabalho dos artistas pode ser observado nas madrassas. A entrada é permitida apenas no hall de algumas delas, mas a arquitetura de certos prédios é belíssima, e não menos belas são suas portas, esculpidas quase sempre em bronze e madeira.
A Madrassa Seffarine, localizada na medina, é a mais antiga, construída em 1271. A Madrassa Bou Inania, de 1355, é uma jóia da arte árabe: é toda recoberta com mosaicos esculpidos em madeira. A Madrassa de Attarin é uma das mais famosas e permite a entrada de visitantes. Construída no século 14, tem uma belíssima porta de bronze. O pátio interno oferece vários exemplos do cuidadoso e delicado trabalho de artesãos marroquinos em mármore, alabastro e cedro.
Uma curiosidade nas proximidades da Madrassa de Attarin é o prédio da Quaraouyine, que os marroquinos consideram a primeira universidade do mundo. O prédio abrigou originalmente uma mesquita, mas no ano 859 a filha do sultão Mohamed bem Abdellah, Fatma El Fihria, fundou ali uma universidade. Hoje outra vez uma mesquita, a Quaraouyine continua sendo um centro de aprendizado do islamismo. Não é possível entrar nela, mas algumas das portas estão sempre abertas e assim é possível admirar a beleza do pátio externo.
Em toda a cidade antiga de Fes a tradicional arquitetura árabe se destaca. Quase todas as casas são projetadas de forma a não oferecer a quem passa pela rua detalhes da qualidade de vida do morador. Os árabes não ostentam. Preferem ser, que parecer ser. Muitos vivem ainda como há séculos.
Um passeio impressionante, dentro da medina, é até Suuq Dabbaghin, como é chamado o curtume que funciona, ainda hoje, da mesma forma como na Idade Média. O curtimento, basicamente de peles de cabra, é artesanal. O lugar tem o cheiro da morte. Produtos químicos como a cal e corantes são colocados em dezenas de tanques pelos quais as peles vão passando no processo de tratamento. A desenvoltura dos homens descalços e sem camisa que trabalham ali podem chocar o turista, que certamente não conseguiria chegar até o lugar sem segurar, espremendo, folhas de hortelã no nariz. O cheiro é insuportável, apesar de o curtume ser um registro vivo da história.

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