Ferreira Gullar nos cadernos
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 13 de outubro de 1998
Patricia Decia Agência Folha 
O poeta e crítico de arte maranhense Ferreira Gullar, 68, tem sua vida e obra retratadas no sexto volume dos Cadernos de Literatura Brasileira, que o Instituto Moreira Salles lança hoje, no Rio de Janeiro, com noite de autógrafos. Gullar é autor de uma poesia que, citando os Cadernos, passou pela luta contra o formalismo da geração de 45, pelos movimentos concreto e neoconcreto (do qual ele foi um dos fundadores), por uma dicção de matiz popular e politicamente engajada (no CPC da UNE, na década de 60) e até pelo verso lírico-coloquial de extração modernista. Biografia, uma extensa entrevista com mais de cem perguntas, ensaios, depoimentos de amigos e um guia de referências bibliográficas sobre o poeta estão reunidos na publicação.
Entre os colaboradores estão o teatrólogo Dias Gomes, o artista plástico Antonio Henrique Amaral e o poeta Moacyr Félix, com depoimentos da seção Confluências, e ensaios do poeta Alcides Villaça e do crítico de artes plásticas Wilson Coutinho. Além disso, há reproduções de originais do Poema Sujo (1976) e cinco poemas inéditos do autor, que há 11 anos não publica um livro de poesia - o último foi Barulhos, de 1987. Neste ano, ele lançou Rabo de Foguete - Anos de Exílio (ed. Revan), suas memórias do período 71-77. Os inéditos devem chegar ao prelo no ano que vem, sob o título de Muitas Vozes.
Estou muito contente. Mas quando recebi o Cadernos fiquei num estado um pouco estranho. De repente, parece uma coisa que está se encerrando. A coisa consagradora me incomoda. A vida não é consagrada. Mas as coisas são contraditórias, eu sou contraditório. Uma parte de mim/ pesa, pondera;/ a outra parte/ delira, afirmou Gullar, citando os próprios versos do poema Traduzir-se.
Segundo Rinaldo Gama, editor-executivo dos Cadernos, a homenagem a Gullar marca também a volta do foco da publicação à obra de um poeta, após quatro autores de prosa, romancista e contista (Raduan Nassar, Jorge Amado, Rachel de Queiroz e Lygia Fagundes Telles). O primeiro número, em março de 96, foi dedicado ao poeta João Cabral de Melo Neto e o próximo, que deve sair em março de 99, será sobre o romancista baiano João Ubaldo Ribeiro.


