Fernando Pedreira dá nota máxima ao mundo ´pós-utópico´
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sábado, 01 de maio de 1999
Por José Nêumanne 
São Paulo, 02 (AE) - Summa cum Laude. O título em latim não deixa por menos: nota máxima, com louvor. Essa expressão, usada nas universidades para premiar a excelência de algum trabalho acadêmico, foi escolhida pelo jornalista Fernando Pedreira para servir de título ao livro que será lançado pela Editora Objetiva nesta terça-feira (04), às 19h30, no Palácio do Itamaraty, em Brasília. O autor quis dar nota máxima ao mundo tal como ele é hoje: "pós-utópico", em sua definição.
Carioca, 72 anos, o ex-craque de futebol e ainda torcedor do Botafogo, apesar dos pesares, Fernando Jorge Pedreira descreve, de próprio punho e armado apenas de um lápis, o que entende como sendo a adaptação dos conceitos enunciados pelo filósofo grego Platão em sua obra clássica "A República" à globalização contemporânea. Jornalista, durante sua permanência em Paris, como embaixador, deixou de escrever os artigos dominiciais que publicava em "O Estado de S. Paulo" e no "Jornal do Brasil", cujas redações dirigiu. Teve, então, tempo para ler Platão e escrever esse ensaio.
Nele, o ex-comunista, hoje devoto leitor de carteirinha do mexicano Octavio Paz, justifica a convicção de que as idéias de sua geração (também a de seus amigos Júlio de Mesquita Neto, Ruy Mesquita, Cláudio Abramo e Roberto Gusmão), que ele chama de "geração 45", estão em voga neste século, que conheceu a perversidade da utopia marxista e, por causa dela, chegou à humildade da "pós-utopia". Summa cum Laudae é seu sétimo livro
engrossando uma lista iniciada com Março 31, sobre o golpe de 1964, e cuja última rama produziu O Quebra-Cabeças, lançado há meio ano.
Como surgiu a idéia de seu novo livro?
Faz tempo que pretendo passar a limpo as idéias da minha geração, formada a partir da aliança antifascista que venceu a 2ª Guerra Mundial e que tinha os ideais muito próprios da época, com todas aquelas expectativas exageradas. Depois disso, houve 40 anos de "guerra fria", e houve ditaduras diversas no Brasil
na América Latina e em uma porção de países. Além das ditaduras da Espanha e de Portugal que sobreviveram à Guerra. Sim, claro. No fim das contas, o livro é uma espécie de balanço geral deste meio século. Fazendo a conta hoje, vemos que nossos ideais de 1945 estão sendo confirmados e resgatados. Com a débacle da URSS e o fim do chamado socialismo real, recompôs-se a velha frente, a aliança democrática contra as ditaduras, digamos assim.
Quais são as fontes desses ideais?
A principal é o anti-racismo. A Europa atual é filha do Hitler, porque foi a ação de Hitler que tornou o racismo execrável. Embora ainda sobreviva em muitas partes, não só na Bósnia mas na sociedade em geral, hoje o racismo é combatido, execrado e condenado. Até mesmo militarmente. O fim do racismo passa também pela questão da tolerância e da compreensão entre os diversos grupos. O presidente da áfrica do Sul, Nelson Mandela, representa muito bem esses ideais.
Seria ele o homem mais importante de sua geração?
Não acho que Mandela represente o ponto máximo. Para mim
o homem do século foi Franklin Roosevelt, porque conseguiu levantar os EUA, levá-los à guerra e derrotar Hitler. Ele, sim, foi a maior figura do século. O que não quer dizer que não haja muitos outros. Roosevelt era um homem parecido com Oswaldo Aranha e com Fernando Henrique, ou seja, tinha um extraordinário charme pessoal. Churchill dizia que conhecer Roosevelt era como abrir sua primeira garrafa de champanhe, pois ele era de extraordinárias simpatia, encanto e generosidade. Para você ter uma idéia disso, ouça este caso: havia um conflito da Standard Oil, que, naquele tempo, era o grande truste americano, com a Bolívia. Pois Roosevelt deu razão à Bolívia. A política da boa vizinhança de Roosevelt, inclusive em relação à América Latina, era nova, no sentido de que era tolerante e respeitava também os direitos dos mais fracos. Hoje estamos fazendo isso com o Mercosul e os europeus estão fazendo com a União Européia.
Você acha que toda essa regionalização é uma espécie de fruto da política de "boa vizinhança" de Roosevelt?
Não fruto, porque ninguém fala mais na política de "boa vizinhança". Mas, de certa maneira, a atitude pessoal do Roosevelt como chefe do governo americano foi precursora dessa política atual. Outro dia, lembrei a Fernando Henrique uma viagem de Roosevelt à Argentina. Naquele tempo, o Brasil não tinha muita importância. Na volta da Argentina, ele passou pelo Rio de Janeiro e esteve com Getúlio Vargas. Na conversa, Getúlio se queixou muito do fato de que as empresas americanas e canadenses dominassem as coisas aqui, como a Light, que se sentia a própria dona do Brasil. Getúlio disse: "Presidente, o que o senhor faria se os serviços públicos de Washington, a água
esgoto, luz, todos estivessem na mão de uma companhia estrangeira?" Roosevelt respondeu: "Eu faria uma revolução." Sabe como soubemos dessa história? Foi o próprio Roosevelt quem a contou numa conferência para empresários americanos em Nova York. Não era um homem interessante?
OK. Mas, voltando a seu livro, de que outras idéias vigentes no mundo contemporâneo ele trata?
Uma delas é o que chamo de pós-utopia. Pela primeira vez
em quatro ou cinco mil anos de civilização, o mundo está vivendo uma fase pós-utópica, pois tivemos, neste século 20, uma utopia, o marxismo, que foi aplicada na prática, malogrou e, por isso, foi varrida pela História.
Se foi Hitler quem expôs o absurdo do racismo, terá sido Stalin quem exibiu a face escura da utopia?
Quando se tenta pô-la em prática, toda utopia termina se revelando monstruosa, porque é de sua natureza enfrentar a realidade, negando-a. De fato, ela tenta impor a sua verdade artificial à verdade dos fatos. Ela é sempre muito generosa como ideal. Mas, ao tentar impor seus princípios sobre a realidade, que é, em si mesma, injusta, errada, mas que é a realidade viva e em transformação, cria um mundo monstruoso. Foi o que aconteceu com os marxistas na URSS e em vários outros lugares, mais ou menos na China com o Mao Tsé-tung, no Camboja com o Pol Pot, etc. Por mais generosas que sejam, as idéias são sempre infinitamente mais pobres do que a realidade. O mundo pós-utópico recebeu uma lição de modéstia e equilíbrio e a retransmite diariamente para todos nós.
Então, o mundo pós-utópico é vacinado contra a utopia?
Não que seja vacinado para sempre, porque utopia sempre vai haver: o lugar dela (eu digo isso no livro) é a cabeça dos homens. Portanto, enquanto houver imaginação, utopias serão criadas pelos homens. Mas nosso mundo, tendo a utopia falhado, foi levado a uma atitude mais modesta diante da realidade. Hoje aqui no Brasil, o PT e outros partidos de esquerda ainda se recusam a enxergar os fatos. Mas na Europa e nos EUA em geral, em toda parte as experiências da guerra e da utopia mostraram que temos de ser, digamos, reformistas e não revolucionários, que temos de procurar sempre consertar uma realidade que é injusta, às vezes até inaceitável, mas que não pode ser substituída por um mito pré-fabricado; ela tem que ir sendo consertada pelos próprios homens no dia-a-dia. Enquanto a utopia favorece o autoritarismo, o mundo pós-utópico é, por definição, muito mais democrático e tolerante. Até usaria uma palavra ainda mais forte: é um mundo paciente.
Quer dizer: no mundo pós-utópico, não há lugar para a pressa?
No mínimo, é dado perceber que é impossível chegar ao futuro aos saltos. No livro uso a seguinte imagem: a utopia é como o Cruzeiro do Sul, uma estrela polar, que está lá no céu. Guiamos nossa rota pela utopia, não para chegar lá, mas para desembarcar em bom porto. Aliás, Platão já dizia isso.
O que tem Platão a ver com o mundo de hoje?
A República tem tudo, até por ter sido a maior de todas as utopias. Em muitos casos, a mais lúcida, a mais inteligente de todas. Em Platão encontram-se traços do nazismo naquela idéia da eugenia. O pensamento de Platão é muito interessante e fecundo. Conheci essas oisas, como a gente conhece, no tempo da universidade, do colégio, mas por acaso há dois anos peguei para ler e me encantei.
Você se encantou com a atualidade dele?
Sim. E também pela clareza do pensamento e de sua exposição. Ele nada tem a ver com esses filósofos modernos, cuja leitura não dá para entender: escreve claramente, sem subterfúgios, discute a censura com uma franqueza que hoje seria impossível e com a qual podemos não concordar, evidentemente. No livro, aponto as idéias que me parecem equivocadas, algumas até monstruosas, como essa história da eugenia. Mas Platão é um bom começo para quem quer discutir a história da nossa civilização, porque, de certa maneira, foi o começo, acho que o Século 5 a.C.
na Grécia, foi realmente a grande origem do mundo, da nossa civilização. Afinal, foi o século de Platão, Sócrates, daqueles filósofos todos.
Que outras características tem o mundo que você chama de pós-utópico?
Talvez não nos demos muito conta disso, mas a democracia assim generalizada é bem recente. Até a 2ª Guerra, havia democracia nos EUA, na Inglaterra, na França e em mais meia dúzia de países. Todo o sul da Europa estava sob ditaduras terríveis. Depois, veio a "guerra fria" e hoje temos uma explosão democrática que atinge o mundo inteiro.
Menos a China, que é o país mais populoso.
Não estou dizendo que já tenha conquistado o mundo inteiro. Mas hoje o ideal democrático, por não ter contrapartida
pode ir se estendendo pelo mundo afora. Veja você que até na América Latina temos um pouco de democracia. Esse mundo pós-utópico é democrático, tolerante e paciente, aberto. Outra descoberta que discuto no livro, embora não explore a fundo, é a questão religiosa. Há alguns anos, em outro livro, Impávido Colosso, anotei que os países de origem protestante eram mais infensos ao comunismo. O comunismo só criou raízes e se tornou muito forte nos países católicos, ortodoxos e romanos, não nos outros. A Alemanha, por exemplo, é um país dividido, mas todo o Sul, ficou católico, mesmo depois de Lutero. Procurei ver o que significa isso e uma das coisas que parece mais ou menos óbvia é que a revolução protestante, nos países em que ela foi vitoriosa
de certa forma esvaziou o comunismo. Por isso, esses países não sentiram nenhuma atração pela revolução comunista do nosso século.
Essa não seria uma idéia pós-weberiana?
Exatamente. Até cito o exemplo do México, que não é nem uma coisa nem outra, mas onde também não houve um comunismo forte. Na revolução camponesa de 1910 no México, (Pancho) Villa e (Emiliano) Zapata criaram um estado de coisas que tornou o comunismo irrelevante. Portanto, no México se criou um quadro político peculiar, que embora tivesse recebido apoio dos comunistas, ao mesmo tempo nunca teve nada do comunista clássico
ortodoxo. Aliás, uma das pessoas que mais tenho lido e que mais me impressionaram entre os contemporâneos é Octávio Paz, falecido recentemente. A meu ver, ele é o maior pensador político de nosso tempo. No início, no México, ele era muito favorável àquelas instituições camponesas mexicanas, ao Ejido, aquela espécie de comunidade camponesa que havia no México. Ele tinha um partidarismo, um carinho especial por aquelas coisas mais espontâneas, embora no fim ele tenha visto que não era o caminho porque o caminho, mal ou bem, é esse que estamos seguindo.
Qual será o destino do velho populismo latino-americano do PRI, Vargas, Perón e Hayal de la Torre, nesse mundo pós-utópico?
Essas manifestações de populismo são coisas de uma fase completamente superada. Hoje, todos esses homens são, digamos, monstros históricos, demagogos, mas não têm mais nada a ver com a nossa época. Claro que ainda há uma herança muito forte deles ainda. Mas quem olhar um país como o Brasil vai ver que hoje estamos reformando exatamente as instituições daquela época. E mais: a oposição a essa reforma vem especialmente dos herdeiros dos Vargas Brizola, Lula, etc.
Na pós-utopia há também uma completa desvalorização do guerreiro?
Os grandes heróis sempre foram os guerreiros, mas hoje isso tende a mudar. No livro, chamo a atenção para uma coisa curiosa, que também vem do Platão, pois ele dizia que há dois códigos morais de conduta um é o dos guardiões, quer dizer, dos governantes, e o outro do comércio, ou seja, da sociedade civil. Essa questão foi muito bem estudada por uma professora americana chamada Jane Jacobs. Eu também sorvi nessa fonte feminina. Jane Jacobs mostra isso e Platão tinha esses dois códigos. O que está acontecendo hoje (isso é meu, não é da Jane Jacobs, está no meu livro) é que o código externo, o dos guardiões, que era um código de formato militar, está sendo posto à margem, arquivado; o outro código, o da sociedade civil, do comércio, está sendo exteriorizado, quer dizer, não apenas vige como antes dentro das nações mas entre as nações. Um bom exemplo disso é a União Européia.
Quem sabe, a própria globalização, não é mesmo?
É verdade. Hoje esse código da sociedade civil predomina e, mais do que isso, torna-se a Constituição do mundo. França e Alemanha, antigos inimigos de ontem, estão unidos, bem como Inglaterra e Estados Unidos, os países da OCDE. Não é interessante?
Não sendo mais o guerreiro quem é o herói no mundo pós-utópico?
O herói é o estadista, sem dúvida nenhuma. Mas também vivemos num mundo cada vez mais dominado pela ciência e, em consequência, pelos cientistas.
Sua visão da pós-utopia não é muito cor-de-rosa, não? E a crise atual?
A globalização está produzindo uma solidariedade apressada, surgida até por causa da crise, entre as nações. Quando esta crise de que você fala começou na ásia, logo disseram: "Isso não tem importância. Os asiáticos não sabem governar." Resultado: a crise tornou-se mundial e o FMI teve de entrar em ação e emprestar quantias fabulosas de dinheiro para os países asiáticos. Depois, vieram a Rússia e o Brasil, ou seja
a América Latina. Aí, as pessoas se deram conta de que a globalização tem mão e contramão. Bill Clinton, Jacques Chirac, Tony Blair e Gerhard Schroeder estão procurando meios de evitar outras crises corrigindo os excessos do capitalismo, que são evidentemente destrutivos, como a especulação e a jogatina das bolsas, etc. Eles estão procurando meios de controlar isso sem prejudicar o progresso e o dinamismo do mercado. Mas eu tenho certeza de que eles hoje estão cuidando disso. Eu acho que, por exemplo, a China entrar com trabalho escravo é fruto do fato de que lá não há democracia. Aí, o próprio processo vai levar a acabar com esse trabalho escravo lá e a se democratizar pelo, menos um pouquinho, a China. Não vai acontecer o contrário, quer dizer, a China não vai dominar o mundo com o trabalho escravo


