Fernando, numa de suas pessoas
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sexta-feira, 01 de maio de 1998
Antônio Mariano Júnior 
Bernardo SoaresCena de Sinfonia de Uma Noite Inquieta...: poema cênico baseado na obra de Fernando Pessoa, trata da morte, da arte, da língua portuguesa, entre outras coisasFernando é assim mesmo, surpreendente. Impossível ficar impassível todas as vezes em que se correm olhos lassos ou firmes em quaisquer de seus escritos, em quaisquer de suas pessoas. Várias são as pessoas que abarcam a alma de Fernando. Uma delas, pouco conhecida, porém a mais cética em relação à vida, pode e deve ser conhecida hoje no espetáculo Sinfonia de Uma Noite Inquieta ou Livro do Desassossego. É Bernardo Soares, mais um heterônimo que só foi descoberto em 82 quando pesquisadores abriram o baú com o espólio literário do poeta. A montagem, feita pelo Departamento de Artes Cênicas da Universidade de São Paulo (USP), acontece às 21 horas, no Cine-Teatro Ouro Verde, em Londrina.
Trata-se de um poema cênico, conforme define Willian Pereira, diretor e responsável também pelo roteiro e adaptação. Eu já conhecida o livro há um bom tempo e sempre achei que poderia se dar uma forma cênica a ele- diz o diretor. E assim foi feito. A princípio, o espetáculo seria transformado em um monólogo destinado ao ator Thales Pan Chacon.
Mas com sua morte, os planos precisaram ser refeitos e eis que Sinfonia de Uma Noite Inquieta ou Livro do Desassossego acabou por ser encenado por quatro atores (formandos do departamento de Artes Cênicas da ECA/USP e convidados) - a estréia aconteceu em dezembro do ano passado no teatro da ECA/USP e atualmente está em cartaz no Teatro Faap, em São Paulo.
O espetáculo tem 1h20 de duração. Durante esse tempo, o público vai tomar contato com as impressões de Bernardo Soares que, à luz de seu criador, Fernando Pessoa, é um escrivão confinado aos quartos alugados e à rotina de burocrata. Da janela de seu escritório, na rua dos Douradores, essa pessoa vê a humanidade passar. É de lá que Bernardo - misógino, misantropo e homossexual reprimido - escreve por não ter o que fazer nem para onde ir.
Para transpor o diário de Bernardo Soares, Willian Pereira selecionou vários fragmentos da obra que falam, entre outras coisas, sobre a morte, a arte, a língua portuguesa e Lisboa. Quem conhece um pouco a obra de Fernando Pessoa pode se surpreender porque há alguns textos com humor e ironia- diz Pereira. É dele também a trilha sonora feita especialmente para melhor endossar as impressões deste pouco conhecido mas admirável Bernardo Soares.


