Fernando Meirelles prepara adaptação para o cinema de "Cidade de Deus"
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terça-feira, 14 de dezembro de 1999
Por Alessandro Giannini, especial para a AE 
São Paulo, 14 (AE) - Segundo semestre do ano 2000. Se tudo der certo, é quando o cineasta Fernando Meirelles, co-diretor de "Menino Maluquinho 2" (com Fabrizia Pinto) e do inédito "Domésticas" (com Nando Olival), deve começar a rodar seu primeiro projeto-solo, "Cidade de Deus". Trata-se da adaptação para o cinema do romance-reportagem de mesmo nome, do escritor e professor carioca Paulo Lins. O livro, elogiado pela crítica e elevado a best seller pelos leitores, revela com riqueza de detalhes os meandros de um dos bolsões de pobreza mais violentos do Rio.
Como no livro, a história do filme vai girar em torno de dois moradores do Conjunto Habitacional Cidade de Deus, Buscapé e Dadinho. Começa nos anos 60, mostrando os dois ainda moleques e seus sonhos de vida. Enquanto o primeiro sonha em sair de lá, o segundo deseja ser dono do pedaço.
A idéia é mostrar, no arco de três décadas, o que cada um construiu para si. "Buscapé existe e tornou-se fotógrafo - alguns de seus trabalhos ilustram a apresentação do projeto", conta Meirelles. "O Dadinho cresceu e virou o Zé Pequeno, um dos traficantes mais violentos e temidos da região; ele foi morto em um acerto de contas."
Para quem imagina um filme-denúncia, na linha de "Central do Brasil, Meirelles tem uma resposta pronta. "Não tenho nenhuma intenção de que fique assim", diz. "Vai ser revelador de como a nossa sociedade incentiva a criação de sociedades paralelas, com seus próprios códigos e leis; vai mostrar onde e porque a violência se origina."
Projeto - Anunciado hoje à tarde na produtora O2, de Meirelles, o projeto está bem adiantado. Uma parceria com a Videofilmes, de João Moreira e Walter Salles, deve tornar viáveis as filmagens no Rio e contatos com produtores estrangeiros - europeus, a julgar pelo press-release em português e francês. Uma parte dos patrocinadores, que serão beneficiados com incentivos fiscais da Lei do Audiovisual, também já está comprometida com o filme.
"Só posso divulgar os nomes dos patrocinadores quando tiver os contratos assinados, o que deve ocorrer somente no finalzinho do ano, quando as empresas fecham seus balanços", explica Meirelles. "Por enquanto, tenho 60% do orçamento, contando todos que se comprometeram comigo." Segundo os cálculos do diretor, o filme deverá ficar em torno de R$ 3 milhões.
Meirelles leu o livro no fim de 97 e logo decidiu que queria adaptá-lo. "Um amigo meu havia me indicado a leitura dizendo que era muito bom, mas impossível de fazer um filme", conta. "Quando terminei, achei fantástico e vi que tinha boas possibilidades ali." Os direitos de adaptação foram comprados em meados do ano passado. A tarefa de roteirizar o calhamaço de 600 páginas foi entregue a Braulio Mantovani, com quem Meirelles trabalhou na realização das Oficinas Culturais na TV, da Cultura. "A grande quantidade de personagens e histórias paralelas foi uma das características mais difíceis de vencer", avalia Meirelles. "No fundo, o desafio era transformar 600 páginas de livro em quase 200 de roteiro."
Roteiro - Tavares conseguiu se desembaraçar com relativa facilidade do trabalho. Conta que, ao contrário do que escuta de outros colegas de profissão, teve liberdade de ação. "Ele havia me pedido algo na linha de "Short Cuts - Cenas da Vida, do Robert Altman, que tem muitas histórias paralelas, mas acabei me decidindo por outra solução narrativa", conta. "Tive que juntar muitos personagens e eliminar muitas histórias, mas acho que o trabalho está ficando bom."
O primeiro tratamento foi premiado duas vezes. Uma ao ser selecionado para o 3.º Laboratório de Roteiros Sundance-Rio Filme, realizado na praia de Bertioga, em São Paulo. E em um concurso promovido pela Motion Picture Association of America, que valeu ao roteirista uma viagem para os Estados Unidos, onde frequentou uma série de palestras da Writers Guild of America, o sindicato dos escritores e roteiristas.
Tanto em uma ocasião quanto em outra, Tavares ouviu conselhos e promoveu mudanças no roteiro. "No laboratório do Sundance, um dos meus consultores, Alexander Payne, deu toques muito legais, como a intensificação do papel do narrador ", relembra. "Na verdade, muitas coisas que eu ouvi, já havia decidido mudar em reuniões com o Fernando."
Paulo Lins, autor do livro, também deu seus palpites. "Na verdade, achei muito legal, não consegui falar muita coisa", revelou. Lins, que tem algumas experiências no cinema como consultor, vai orientar a elaboração da linguagem usada pelos personagens.
Meirelles ainda não tem elenco definido. Segundo ele, a grande maioria dos personagens terá na média 18 anos e será mulata. Para evitar lançar mão dos mesmos atores que povoam as peças e a televisão, a idéia é "criar" um cast. "Vamos montar uma escola de interpretação no Rio e convocar os atores de grupos amadores da Cidade de Deus", antecipa. "Vou tirar o elenco dessa instituição; vai ser o melhor trabalho e o mais legal de desenvolver em todo o filme."


