Fernando Meirelles fala sobre 360, seu novo filme
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domingo, 31 de julho de 2011
Agência Estado 
Menos é mais. Mais difícil. Mais desafiador. Mais intimista... Ao menos quanto se trata do novo filme de Fernando Meirelles que tem pré-estreia mundial no Festival de Toronto em setembro. Apesar de sugerir, e ser, uma volta ao mundo (ainda que metafórica), é o filme mais simples do diretor que já filmou a guerra do tráfico no Rio, calamidade mundial, conspirações internacionais...
Com roteiro do premiado Peter Morgan (de A Rainha) é inspirado na polêmica obra do austríaco Arthur Schnitzler, Der Reigen (Ronda), escrita em 1897. A trama da peça gira em torno dos encontros e desencontros de casais de diferentes classes sociais e origens. "Peter se inspirou nos elos que unem as pessoas, sem que elas mesmas saibam. E sem que possam interferir nas escolhas que acabam sendo feitas e que as afetam. Quanto de fato é fruto racional de nossas escolhas? Quanto é fruto de um mosaico em que as peças estão conectadas?"
Assim como as contradições humanas que fazem de 360 uma história tão rica, a contradição entre o fato de ser, como Meirelles define, um filme pequeno, despretensioso e íntimo, o longa exigiu uma estrutura de produção complexa, com equipes na Inglaterra, França, Áustria, EUA e Eslováquia. É, como o diretor define, um filme-táxi, do qual os passageiros/personagens/atores sobem e descem todo o tempo. E ele, mesmo sem itinerário definido, os acaba conduzindo a um destino comum. Os passageiros são Maria Flor, Anthony Hopkins, Rachel Weisz, Jude Law, Juliano Cazarré, Jamel Debouze e Ben Foster.
Esta foi a primeira vez que Meirelles dirigiu atores em línguas que não compreende, como alemão, eslovaco...
Orçado em US$ 15 milhões, é uma coprodução Inglaterra, França, Áustria e Brasil, "mas a Ancine não o considera brasileiro por não preencher os requisitos técnicos necessários". "Não estamos usando dinheiro brasileiro, mas o filme não deixa de ser brasileiro, já que, além do diretor, montador e dois atores, montagem e pós-produção estão sendo feitas na O2 Filmes, em São Paulo", explicou o diretor ao Estado.
Lançar 360 em Toronto foi desde sempre uma estratégia?
Não teríamos tempo para terminá-lo para Veneza, e Berlim está muito distante. Quero lançar o filme ainda neste ano para começar 2012 com uma nova claquete. Estamos correndo para pegar Toronto, vamos acabar aos 45 do segundo tempo. Para o mercado norte-americano, Toronto é hoje o principal festival. O mercado está se igualando a Cannes em volume de negócios e a cada ano cresce mais. Esta será minha quarta vez em Toronto, onde estive com Domésticas, CDD e Cegueira.
O que foi novo em 360, que, assim como Cegueira e Jardineiro, tinha locações tão variadas?
Nunca havia dirigido atores em línguas que não falo. Há cenas em russo, eslovaco, árabe e alemão, além do português, inglês e francês. Mesmo quando não se entende o que um ator fala, é possível saber se ele está bem ou não. Mas entender todas as palavras é bem mais confortável. Com um dos atores, Vladimir Vdovinchenko, falava por meio de uma intérprete.
Diante de um novo projeto, que parece que não tem solução, você diz que vê a bola de neve descendo... e tem de se virar para correr ou encará-la. Quando entrou no projeto de 360, não sabia que filme ia fazer. Não seria todo diretor 'viciado em adrenalina'?
No meu caso acho que não é tanto o vício na adrenalina. Meu problema é que sofro de entusiasmo. De acordo com o dicionário, a palavra vem do grego en theos (em Deus), ou possuído por uma força divina. Não sou religioso. Então Deus está fora da minha equação, mas percebo quando sou arrebatado por uma alegria que me dá vontade de avançar sem medir obstáculos. Quando a onda passa, já estou comprometido e aí às vezes vem o arrependimento. Mas sigo em frente. Nunca 'cheirei' na vida, mas imagino que o efeito do pó tenha alguma relação com essa onda que me arrebata. Com a idade, aprendi a controlar isso e já sei que, mesmo quando vem a baixa, uma hora vou pegar a onda novamente. Se num momento me entusiasmei é porque algo ali falou com alguma parte dentro de mim. Então vale a pena ser investigada.
Além do entusiasmo, por que entrou para o 360?
Porque gostei ou me identifiquei com um aspecto que está em quase todos os personagens. São pessoas boas que tentam agir da melhor maneira. Nem sempre conseguem. Como todos, lutam contra seus desejos e pulsões. Às vezes ganham, às vezes perdem. O texto de Morgan também é como pudim de leite, você vai devorando e não consegue parar.


