Fernando Brant faz musical "Fogueira do Divino"
impedem que a trilha sonora do musical "Fogueira do Divino" exija complemento de qualquer espécie de suntuosidade, a exemplo do que o trio de compositores vem fazendo há décadas com sua canções. Uma das referências de Brant nas artes cênicas é o musical "Arena Conta Zumbi", de Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri, encenado nos anos 60 por nomes como Paulo José e Dina Sfat. "Os atores vestiam bermuda e camiseta", lembra o compositor. "Não quero descaracterizar o índio, mostrando-o com roupas; quero uma coisa despojada." "Fogueira do Divino" não terá também nenhuma preocupação antropológica ou didática. A engrenagem central do espetáculo é a lógica poética característica da obra de Brant, autor de canções como "Maria Maria, Solar, Canção das Américas, Travessia" e "Nos Bailes da Vida". E essa poesia será cantada por cerca de dez cantores - todos de Belo Horizonte -, que serão acompanhados pela Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, formada por aproximadamente 60 integrantes. A centenária Festa do Divino, fonte de inspiração do espetáculo, é uma das maiores manifestações religiosas e culturais do País. Realizada em vários Estados, nem sempre com esse nome, a festa leva às ruas procissões, queimas de fogos, paus-de-sebo, brincadeiras, cavalhadas e danças típicas como a das fitas e do sabão, a do caranguejo e a do balaio. Há também um desfile de ritmos, entre eles toadas, congadas, moçambiques, jongos e catiras. Nem tudo será incluído no espetáculo, é claro. Até porque as histórias desembocam em Minas, num determinado momento, e muitos ritmos da Festa do Divino vêm do Nordeste. "Uma parte importante da formação do povo brasileiro deu-se durante o período do ouro em Minas", afirma Moura, responsável pela ligação musical entre as letras do amigo Brant. Ele ressalta que a mineração atraiu gente de todo o Brasil para o interior do Estado, o que contribuiu ainda mais para a mistura racial. "Isso ocorreu por volta de 1710; depois ocorreram fatos que levaram à Inconfidência Mineira." Novos hábitos - "Fogueira do Divino" mostra o paraíso habitado pelos índios, a influência portuguesa no desenvolvimento do povo e a chegada dos negros, que introduziram aqui seus hábitos culturais. Há, segundo Moura, uma música que traz uma metáfora da miscigenação, por meio da diversidade gastronômica brasileira. A letra fala da mistura do vatapá, da mandioca, do feijão e outros pratos típicos do cardápio nacional como forma de entender a formação do povo. "Há outras músicas que lembram o sofrimento dos negros e da gente que vem de Lisboa", antecipa Moura. Apesar do curto tempo até a estréia, o trio de compositores garante que o resultado vai agradar. A pressão do tempo e o fato de estar estreando num espetáculo desse porte chegou a abalar a tranquilidade de Moura. "Estava apavorado quando começamos a fazer as músicas", revela. "Afinal, nunca arrisquei tamanha ousadia." A única experiência de Moura nos palcos foi com a trilha sonora da peça "Lágrimas e um Guarda-Chuva", com Zezé Polessa e Antônio Grassi, que, até recentemente, estava em cartaz no Rio. A diferença para o musical é que agora as pessoas no palco são cantores. "Trabalhar com atores profissionais é mais fácil porque eles já acordam no palco", afirma Moura. "Com cantores é complicado ensaiar, pois muitos eles têm outros compromissos, como shows e gravação de CDs." Já Brant diz que sempre conviveu com espetáculos musicais na sua vida. Para ele, é um desperdício que no Brasil, com a vastidão de sua produção musical, não haja mais espetáculos desse tipo. "Temos tanta música de qualidade, é pena que não sejam feitas para musicais." Pouca coisa foi definida até agora com relação à cenografia, aos figurinos e à direção artística. É quase certo que o diretor teatral João das Neves, um dos fundadores do Teatro Opinião, assuma a responsabilidade pela concepção visual do espetáculo, que fará turnê pelo Brasil. Mas não importa. O que o público pode esperar é algo que Brant define com a mesma simplicidade com a qual constrói seus versos: "Quero fazer uma coisa bonita."Por Ricardo de Souza São Paulo, 22 (AE) - Como todo mineiro, o compositor Fernando Brant gosta de contar histórias. Já contou muitas para o Brasil inteiro, durante os mais de 30 anos de parceria musical com o cantor Milton Nascimento. Suas letras e poesias expõem raízes culturais fincadas em cada esquina, quintal e praça de Minas Gerais. Mas, em seu novo trabalho, Brant ultrapassa as fronteiras de seu Estado natal. Ele escreveu as 20 canções do musical "Fogueira do Divino", com estréia prevista para maio, no Palácio das Artes, em Belo Horizonte. A produção, ainda sem diretor definido, terá arranjos para orquestra de Nivaldo Ornelas e música de Tavinho Moura, ambos companheiros de longa data do compositor. Os primeiros minutos de prosa com Brant denunciam a mineirice típica de quem dificilmente abandona o aconchego de Belo Horizonte. Fala mansa, até com uma certa reserva, o compositor vai, gradualmente, deixando a desconfiança de lado para discorrer sobre sua nova empreitada. "O espetáculo tem a ver com a Festa do Divino e a tradição mineira de contar histórias ao redor da fogueira", explica Brant. "Vamos discutir as coisas da vida." Por coisas da vida entenda-se a formação do povo brasileiro, resultado da miscigenação de três povos: índios, portugueses e negros. "Lógico que vamos trazer o foco para Minas, mas a vida em geral vai estar presente nessa fogueira", diz o compositor. Contudo, se engana quem pensa que "Fogueira do Divino" pega carona na já saturada onda de comemoração dos 500 Anos de Descobrimento. "Apesar de tratar dos três povos, não quis fazer nada parecido com o que todo mundo está fazendo; estou tratando do País daqui para a frente." A simplicidade e discrição de Fernando Brant, Tavinho Moura e Nivaldo Ornelas, figuras carimbadas do lendário Clube da Esquina





