Fernanda Young: irritando com sucesso
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 14 de abril de 2009
Marco Bezzi<br> Agência Estado 
Olhar para a figura da carioca Fernanda Young, toda vestida de preto, pele branca e jeito desengonçado, traz de cara a lembrança de alguém de mal com a vida. É necessário baixar a guarda para entender o que se passa em sua cabeça. Em frases prolixas, ela revela mais do que apenas uma ''menina'' revoltada de 38 anos com 30 tatuagens espalhadas pelo corpo. Fernanda é alguém que gosta de se expor por inteiro.
A implicância com a sua figura ainda existe?
Existem injustiças, e elas todas têm um ponto de intercessão que é a implicância que vem da ignorância. Mas isso não costuma esquentar mais a minha cabeça.
As críticas aumentaram quando você participou do programa ''Saia Justa''.
Virei a bola da vez de piadinhas e correntes de internet e me assustei muito, pois achava que não estava falando nada de errado. Levei muito a sério esse roteiro e me dei mal. Fui tachada de louca.
Não é estranho uma pessoa assim escrever um humorístico como ''Os Normais''?
Entrei como autora na Globo com o (marido) Alexandre Machado, que sempre escreveu humor. E eu sou muito engraçada, mesmo nos meus momentos mais melancólicos. O humor é o apelo do desespero. Não tenho nenhuma culpa cultural de escrever humor, pois é dessa forma que posso expor as coisas graves que com um tom mais leve se tornam suportáveis.
A parte dois do longa ''Os Normais'' sai no segundo semestre?
Sim. E quero fazer uma trilogia, pois acho muito chique e amo o Rui e a Vani (risos). A Vani é o caos, que representa a mulher e o Rui é o homem que costuma ceder a esse caos. A mulher é quem faz o homem andar para frente. Nessa segunda parte, eles decidem fazer um ménage à trois e ficam a noite inteira tentando fazer essa coisa insana para tentar reascender o relacionamento.
Você se considera mais roteirista, escritora ou apresentadora?
Sou escritora e, se pudesse, não faria mais nada. Mas não ofereço a esses grandes mestres do avaliar da literatura alheia o que eles querem, que é lobby, charme, condescendência. Eu terminei o segundo grau no supletivo com 23 anos de idade e não tenho a menor vergonha disso. Quem lê os meus livros, vê que eu não estou brincando.
Mas hoje esse preconceito diminuiu.
O nível de virulência diminuiu e eu não mudei. As pessoas começaram a entender que eu insisti e que não sou descartável. O brasileiro tem de aprender a respeitar os seus artistas como os franceses respeitam seus autores. Acho muito curioso que em um País com tão poucos autores não haja respeito. Na hora em que o povo ler mais e não tiver uma mídia tão manipuladora em cima, as novelas vão poder ter 20 minutos.
Mas você participa dessa mídia quando faz um comercial para uma marca de telefone em rede nacional, não?
Escrevi o texto e pude falar que eu tive dislexia, demorei pra escrever, sempre fui a burra da turma. Até hoje não consigo ver a hora em relógio de ponteiro. Quando escrevo à mão, erro tudo, escrevo abraço com dois ''s''. Não optei por ser esquisita, nasci assim. Fiz um tratamento psiquiátrico que durou cinco anos. Hoje, tenho vários livros, séries de TVs, filmes, três filhas lindas e um casamento de 15 anos. Para quem queria se matar aos 17 anos, me sai muito bem.
Quem são seus ídolos?
Agora estou numa fase super Ney Matogrosso. Esse homem vai fazer 68 anos e continua transgressor, não teme o ridículo. Estou apaixonada por ele. Mas fui muito precocemente envolvida por Smiths, Cure e Siouxsie And The Banshees. Quando eu vi a Siouxsie pela primeira vez aos 12 anos, pirei. Com 39 anos, ainda me considero uma punk. Já a Madonna me fez pensar sobre o feminismo. Uma louca num país tão moralista vivendo de escândalos. Adquiri muita disciplina. Faço ginástica desde os 23 anos por causa dela.
Como está sendo gravar o ''Irritando'' agora com plateia?
Uma experiência única, um crescimento profissional e muito mais punk do que eu imaginava. Agora tenho de pensar na plateia, no convidado e na câmera. Meu olhar teve que fazer um 360º. Até agora gravamos o Ney Matogrosso, a Eva Wilma e o Luiz Fernando Guimarães.
Como você quer ser lembrada para a posteridade?
Quero ser vista pela minha integridade e pela minha coragem. Uma pessoa que nunca se dobrou a nenhuma caretice.


