Fernanda prepara-se para festa do Oscar
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 23 de fevereiro de 1999
Uncas Fernández France Presse 
A primeira-dama da dramaturgia brasileira, Fernanda Montenegro, candidata ao Oscar de melhor atriz pela interpretação da professora Dora, de Central do Brasil, disse anteontem, em uma entrevista coletiva realizada no balneário uruguaio de Punta del Este, Uruguai, que estará em Hollywood, no dia 21 de março, em clima de festa e não de disputa.
Fernanda é madrinha do I Festival de Cinema do Mercosul (Mercocine), que começou na segunda-feira e terminará no sábado na cidade que fica a 140 km ao leste de Montevidéu.
Sua participação no festival foi relâmpago, limitando-se à cerimônia de abertura e à entrevista coletiva. Anteontem, Fernanda viajou para Los Angeles, onde ficará até o dia da festa de entrega dos Oscars.
Durante a entrevista, Fernanda falou da limitação dos atores latino-americanos no mercado internacional, do sucesso do filme brasileiro, que concorre ainda na categoria Melhor Filme Estrangeiro e sobre sua indicação.
Nós, latino-americanos, estamos confinados ao clichê de latinos. Às vezes, temos bons papéis, mas no geral ficamos restritos a papéis da velha índia ou da mulher exuberante. Não me encaixo nem no perfil da índia nem no da sedutora de seios abundantes e grandes nádegas, sempre convidando à luxúria mais desenfreada, disse a atriz.
Não estou no clima da disputa, vou a uma festa, reforçou, mas deixou claro: (...) Mantenho minha auto-estima e não me sinto inferior por isso, mas para mim, a história acabou no dia 9 de fevereiro, com a indicação (para melhor atriz), ainda que o Brasil esteja esperando a conquista desta nova Copa do Mundo, brincou.
Desde 1962, quando Sofia Loren conquistou o Oscar de melhor atriz pelo papel principal em La Ciociara (1961), nenhuma outra atriz de fala não inglesa conseguiu arrebatar a estatueta.
Fernanda diz confiar nas chances de Central do Brasil levar o Oscar de melhor filme estrangeiro, exatamente por não competir com as superproduções americanas.
Ela elogiou ainda o diretor Walter Salles, que teve nas mãos a alma de Vinícius (de Oliveira, intérprete do menino Josué, protagonista da fita) e explicou o sucesso de Central do Brasil pelo fato de contar uma história de dois personagens em busca de sua identidade.
Vinícius e Walter Salles não puderam ir ao Mercocine por problemas de vôo.
Fernanda explicou que o cinismo de seu personagem, Dora, se deve a que uma velha abandonada é pior do que um menor abandonado, porque a criança, pelo menos, tem um futuro. Segundo ela, Central do Brasil consegue tocar os temas sociais sem ser demagógico ou melodramático.
Em sua opinião, a maior qualidade do filme é a honestidade.
No entanto, explicou, o sucesso mundial de Central do Brasil se deveu ao fato de uma produtora internacional estar trabalhando em sua distribuição.
As distribuidoras americanas têm todo o espaço do mundo, nem mesmo as européias podem competir e o que acontece é uma falta de espaço para o cinema nacional do mundo inteiro, pois tudo passa pelas distribuidoras poderosas, explicou.
Para matar a curiosidade, Fernanda disse que usará na cerimônia um modelo Valentino, que gentilmente se ofereceu para fazer um vestido para a ocasião.
À festa, Fernanda irá acompanhada de seu marido, Fernando Torres. Ela disse esperar que seus filhos, a atriz Fernanda Torres e o diretor Claudio Torres, também possam ir. Após 50 anos de carreira, Fernanda disse nunca ter sonhado que a vida pudesse ter um desdobramento tão louco.France PresseFernanda Montenegro fala da limitação dos latinos-americanos no mercado internacional: ficamos restritos aos papéis da velha índia ou da mulher exuberanteFernanda Montenegro abre festival no Uruguai e já está em Los Angeles,
onde fica até a entrega do Oscar


