Fernanda Montenegro volta a encenar "Dona Doida" em São Paulo
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terça-feira, 27 de abril de 1999
Por Beth Néspoli 
São Paulo, 28 (AE) - Fernanda Montenegro estreou no Rio, em 1987, o espetáculo "Dona Doida", cujo roteiro reúne poemas colhidos em seis livros da mineira Adélia Prado, sob direção de Naum Alves de Souza. Desde então, não parou de apresentá-lo pelo Brasil, de Alagoas ao Acre, passando pelo interior de São Paulo e indo até pequenas cidades próximas à fronteira no Rio Grande do Sul, "Dona Doida" percorreu literalmente do Oiapoque ao Chuí, emocionando as mais diferentes platéias.
Amanhã e sexta-feira, Fernanda volta a apresentar "Dona Doida" em São Paulo, no Sesc Ipiranga, dentro do projeto "Solos de Teatro", cujo objetivo é investigar os processos criativos do ator, tratado como o fundador do ato teatral. Como prevê a programação do evento, Fernanda vai falar sobre o seu processo de criação para uma platéia de atores, atrizes, estudantes de teatro, sexta-feira, às 17 horas.
Foi justamente o fato de as apresentações estarem inseridas num projeto maior que levou a atriz a aceitar o convite de Danilo Santos Miranda, diretor do Sesc/São Paulo para dar continuidade à série inaugurada com a atriz Denise Stoklos. "Acho que o trabalho desenvolvido pelo Sesc/São Paulo é um exemplo para o Brasil inteiro de como cuidar da cultura e da educação", diz Fernanda.
Embora nada tenha sido alterado no roteiro do espetáculo
o tempo certamente provocou algumas transformações. "O espetáculo torna-se cada vez mais uma conversa quente com a platéia", avalia. Ela diz nunca ter considerado um monólogo ou recital. "Acho que "Dona Doida" se assemelha mais ao intermezzo, como na música, por sua relação direta com a platéia".
A dona de casa de Divinópolis (MG) Adélia Prado publicou seu primeiro livro, "Bagagem", em 1976. Dez anos depois, quando Fernanda começou a planejar o espetáculo, já tinha seis livros publicados, de uma poesia que traduz o sagrado no cotidiano, na relação com a casa, o preparo do alimentos, o cuidado com marido e filhos.
Com poemas selecionados dos seis livros, Fernanda, Fernando Torres e Naum Alves de Souza criaram em parceria um roteiro cujo desenho tem início na infância. "O primeiro movimento fala da descoberta de sua presença no mundo, passa pelo encontro do amor e vai até chegar à maturidade, na conclusão da vida", comenta Fernanda. A religiosidade que marca fortemente a poesia de Adélia não é estranha a Fernanda. "Por formação, tenho um sentimento religioso inarredável".
Com 70 anos de vida e comemorando 50 de carreira, Fernanda planeja um evento inédito em sua trajetória. Provavelmente em julho, o Museu de Arte Moderna do Rio acolherá uma exposição com fotos e figurinos da carreira da atriz. "Não sei exatamente como vai ser, mas quero percorrer oito cidades com a exposição", diz. E não é só. "Como desdobramento, pretendo realizar oficinas com atores, na verdade leituras de peças, não leituras encenadas para efeito de público, mas para refletir sobre os textos". A formação de atores preocupa a atriz? "A idéia não surgiu de uma preocupação especial: é só um desejo".


