São Paulo, 01 (AE) - Em abril, numa cerimônia com direito a choro discreto, Fernanda Montenegro recebeu a mais alta condecoração que pode ser atribuída a um cidadão brasileiro: a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito. A genial Dora de "Central do Brasil" virou comendadora. Num discurso emocionado e cheio de verdade social, disse ter um sonho: "Que todas as desesperadas doras sejam resgatadas desses ônibus perdidos que atravessam nosso sertão de miséria".
Até por essa lucidez e altivez em falar dos problemas do Brasil, Fernanda possui credibilidade. Nossa maior atriz - de teatro, cinema e TV - merece a confiança das pessoas. É essa credibilidade que Fernanda vai emprestar agora ao Canal Brasil, no novo projeto do qual participa. No dia 29 estréia "De Conversa em Conversa". O programa idealizado por Luiz Carlos Barreto e dirigido por seu filho, o cineasta Fábio Barreto, está centrado na personalidade de Fernanda, mas contará com a participação de dois jornalistas: Carlos Heitor Cony e Artur Xexéo.
Três pilotos já foram gravados para testar a química entre o trio. Fábio Barreto diz que a fórmula do programa é unir a credibilidade de Fernanda, a inteligência de Cony e o humor de Xexéo. O próprio Xexéo acha que as três qualidades estão resumidas em Fernanda: "Ela tem credibilidade, inteligência e muito humor, um astral maravilhoso". Modesta, Fernanda prefere dizer que se trata de um projeto de equipe.
Tudo começou quando Luiz Carlos Barreto, o Barretão, lhe propôs um programa de TV. Fernanda retrucou: "Mais uma senhora na TV?" Condicionou: só se fosse assessorada por bons jornalistas. Cony, que também é romancista, e Xexéo entraram no projeto. A idéia é colocar os três em torno de uma mesa e deixar a conversa fluir. De conversa em conversa, vão falar de tudo durante uma hora.
Depois da indicação para o Oscar, todo o mundo se perguntava o que Fernanda ia fazer. Ela embarcou no projeto "Fernanda", uma mostra itinerante que recupera os 50 anos de sua carreira. A mostra começou no Rio e agora vai a Palmas, Campo Grande, Belo Horizonte, Curitiba e Florianópolis com filmes, objetos e muitas fotografias. Em janeiro, desembarca em São Paulo. Fernanda vai acompanhá-la em todas as cidades. Quer conversar com o público. Por conta desse projeto, não tem feito mais nada.
Recusou um convite para filmar na Espanha, tem pilhas de roteiros para ler em casa, mas não consegue fazê-lo por falta de tempo. Mas topou o projeto do programa "De Conversa em Conversa", "por ser o Canal Brasil e o Barretão, dois amigos do cinema brasileiro". Diz que o programa é pequeno, não tem muita ambição e vai passar num canal alternativo, na TV paga. "Fernanda não quer barulho", define Xexéo. Ela concorda, mas não lhe falta entusiasmo para mais essa nova aventura. Diz que o programa mensal, na última sexta-feira do mês, poderá ser quinzenal. "Nada é definitivo, nada está fechado ainda, vamos fazer pelo prazer da experiência".
Ainda sobre o Oscar, acha que que valeu a pena ter visto de dentro a grande indústria de Hollywood. Diz que o cinema brasileiro é feito por gente ingênua, idealista. "Cinema, para os americanos, é segurança nacional, uma indústria que movimenta bilhões de dólares". Não guarda mágoa por ter perdido o prêmio da academia para Gwyneth Paltrow, a fadinha de "Shakespeare Apaixonado". Confirma o que, na época do Oscar, disse: que era maravilhoso tudo o que estava lhe acontecendo.
Continua maravilhoso: "Foi recomeço para uma mulher de 70 anos", define. A vida segue "cheia de ondas", como ela gosta de dizer. "Tem cada onda grande na minha praia que eu tenho entrado em verdadeiros túneis, como se fosse surfista", brinca.

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