Fernanda Montenegro critica falta de diretriz para cultura
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 07 de junho de 1999
Por Adriana Ferreira 
Rio, 08 (AE) - Ainda se recuperando da maratona dos cinco meses de divulgação do filme "Central do Brasil", a atriz Fernanda Montenegro dedica-se atualmente à organização de uma grande exposição no Museu de Arte (MAM), comemorativa dos seus 70 anos, que completará em outubro, e do meio século de carreira, que fará no ano que vem. Enquanto não aparece um novo projeto no teatro e cinema, ela colhe os louros de seu sucesso no filme de Walter Salles: acompanhada do marido Fernando Torres
a atriz foi receber, hoje à tarde, o título de doutor honoris causa, da Universidade do Rio de Janeiro (UNIRIO).
Intérprete da professora aposentada Dora, de "Central do Brasil", a nova doutor honoris causa da UNIRIO lamenta a falta de uma diretriz para a educação e a cultura no País. "A última vez que tivemos um projeto cultural e educacional foi com Gustavo Capanema", comentou, fazendo questão de ressaltar que não estava discutindo se as idéias de Capanema eram boas ou ruins. Fernanda critica o mau hábito dos governos não darem continuidade a programas iniciados em gestões passadas. "Nunca se termina, nunca se sabe onde se vai chegar", analisou.
A primeira-dama do teatro e do cinema planeja levar a exposição, que será aberta no dia 21 de julho, para outras cidades. Em cada lugar ela pretende se reunir, em um teatro, com o público para "trocar idéias". "O nome correto seria palestra, mas acho isso formal demais", brincou.
O material terá lembranças do que Fernanda realizou em cinema, televisão, publicidade e teatro, claro. Muitas fotos serão dos espetáculos que produziu ao lado do marido Fernando Torres. "Nestes anos todos acho que já cruzei com quase mil pessoas", calcula. Ao reabrir o baú, Fernanda percebeu algo que considera gratificante: "O número de encontros é maior que o de desencontros".
Ela disse que, ao rever o material, teve a impressão de que está trazendo para o público "muita história e muitas estéticas diferentes". "Vi como o cidadão brasileiro tem que criar várias modalidades de sobrevivência e permanência com a eterna instabilidade do País".
A idéia de montar a exposição, que terá patrocínio do Telecentro, veio exatamente da coincidência do tempo de carreira e de vida estarem com números redondos. E uma boa oportunidade para mostrar à pessoas o tanto de material que a atriz e marido tem guardado. Há alguns anos o casal Torres enviou para a Funarte cerca de dez mil documentos, que nunca vieram à público por causa de problemas administrativos. "Durante um bom tempo tudo ficou num canto, já que o departamento cultural foi extinto pelo Governo Collor", lamentou. Sem nenhum projeto à vista para o teatro ou cinema, Fernanda diz que não gosta de fazer planos. "Às vezes, ficar falando de projetos a longo prazo parece que estou sendo falastrona", disse.


