Fernanda Montenegro comenta suas chances ao Oscar
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quinta-feira, 11 de março de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
Rio, 12 (AE) - O apartamento fica na Avenida Vieira Souto, em Ipanema, de frente para o mar. "Esta vista é mais importante do que o Oscar", o repórter observa para Fernanda Montenegro, quando ela entra na sala. "Há muita coisa mais importante do que o Oscar", responde Fernanda. Não é uma fala de perdedora, de quem procura, antecipadamente, consolar-se de uma possível derrota no dia 21. Talvez até mesmo para poupar-se, Fernanda sabe que a vitória é quase impossível. "Represento um ET na disputa", ela diz. Nos últimos meses, tem viajado com frequência para os Estados Unidos, participado de almoços, jantares, recepções, entregas de prêmios. Sabe que há muito dinheiro envolvido no Oscar.
"É uma indústria pesada, acho que a mais importante da América". E acrescenta: "O cinema vende tudo, do hambúrguer no McDonalds da esquina ao carro de último tipo". Além de poderosa, é uma indústria de sonho. "Gwyneth Paltrow (de Shakespeare Apaixonado) e Cate Blanchett (de Elizabeth) têm mais chances porque têm a cara dessa indústria de sonho". Fernanda cita Arnaldo Jabor, que a dirigiu em "Tudo Bem": "Ele escreveu que o cinema brasileiro, desde o Cinema Novo, celebra a estética da fome; é como se eu levasse essa estética para Hollywood e o Oscar".
Terça-feira, início da tarde. Fernanda chegou de manhã de Los Angeles, onde foi participar do almoço de confraternização dos indicados. Ela conta: "Não é indicada, é nominada; eu fui nominada para o Oscar, o que é uma forma de dizer que eu fui nominada dama da ordem do cinema de Hollywood". Fernanda ainda não dormiu. Está cansada, mas recebe a reportagem da Agência Estado. Fala olhando no olho, dá beijinho no repórter, é calorosa. Não é uma estrela - o Oscar não mascarou Fernanda. A grande, imensa atriz que ela é mantém os pés firmemente fincados no chão.
Permite-se revelar seu lado tiete. "O cinema sempre foi importante para mim, para a minha geração". Quando tinha 15, 16 anos, colecionava fotos de artistas. Em Hollywood, por conta da nominação para o Oscar, conheceu Kirk Douglas, Karl Malden, Gregory Peck. "Olhando para eles, vendo o quanto envelheceram, percebo os irrecusáveis sinais do meu próprio envelhecimento". Ela faz 70 anos em 99 - 70 de vida e 50 de teatro, desde que pisou pela primeira vez num palco. Existem planos para depois do Oscar: fazer uma celebração dessas datas. "Será uma grande exposição, algo assim". Tem gente trabalhando na organização, na captação de recursos. Estresse - Fernanda confessa: nunca esteve numa roda viva semelhante. "Estou estressada". Mas não reclama. "Tudo isto que me está acontecendo é muito gratificante; é como um exercício de revitalização, como se eu estivesse renascendo". Por tudo isto, quer dizer "Central do Brasil". Há três anos está envolvida com o filme de Walter Salles. A rodagem começou no fim de 1996. No fim de 97, o filme estava pronto. Em fevereiro de 98 veio a consagração em Berlim, com o Urso de Ouro para o filme e o de Prata para ela, como melhor atriz. Desde então, Fernanda não parou mais. Dedicou o último ano a "Central do Brasil", correndo o mundo para mostrar o filme.
Ela se lembra como tudo começou: "Waltinho mandou-me o roteiro perguntando se eu queria fazer a Dora". O roteiro já havia sido premiado pelo Sundance Institute. Fernanda apaixonou-se instantaneamente pelo projeto do filme. Mas houve problemas no início: "Havia um garoto que não aprovou, choveu no sertão, um monte de coisas". Quando o menino Vinicius de Oliveira entrou no filme, não apenas ela, mas toda a equipe sentiu que estava no rumo certo. "Com Vinicius aconteceu aquilo que se chama de alquimia do encontro", diz Fernanda, que só tem elogios para o seu jovem parceiro.
Guarda excelentes recordações da rodagem: "A equipe era pequena, mas o filme foi feito com muita dedicação, muito amor." Não poupa elogios para o diretor. "Ele sabe filmar, tem o cinema no coração e no sangue". Mas destaca também a participação do produtor internacional Arthur Cohn: "Nada disto estaria acontecendo sem ele".
Quando se conheceram, Cohn disse que o filme repousaria nas costas dela e disse mais. "Se você corresponder, será uma interpretação para o Oscar." Dito e feito. Como Fernanda se preparou para fazer Dora? "Sou uma carioca que conhece a sua cidade", diz. Definindo-se como uma suburbana, Fernanda lembra que houve um tempo em que a Central era o metrô do Rio. Lá ela filmou cenas de "A Falecida", de Leon Hirszman, nos anos 60. Voltar à Central foi uma emoção. Retornou com olhos de observadora, procurando descobrir Dora naquelas pessoas que cruzavam com ela.
"Compreendi desde logo que o filme deveria ter um lado de documentário", ela diz. E acrescenta: "Para servir à personagem, percebi que teria de detonar a mulher e a atriz". Não teve medo de assumir que Dora é amargurada e sofredora. Só assim conseguiu fazê- la universal. "As pessoas sentem que ela existe." Fernanda aproveita para explicar o sucesso do filme: "Só pode ser o humanismo - a mulher de meia-idade e o garoto representam as duas pontas da mesma carência". Acha que o filme a aproximou ainda mais do Brasil. É grata por isso.
Monstro sagrado do teatro, consagrada na TV, Fernanda tem um carinho todo especial por sua filmografia de quatro títulos. Na verdade, são mais, porque ela fez muitas participações especiais e teve papéis destacados em diversos filmes. Mas, de protagonista, são só quatro. "Todos bons", ressalta. "A Falecida", de Leon Hirszman, "Tudo Bem", de Arnaldo Jabor, "Eles não Usam Black-Tie", de Hirszman, novamente, e agora "Central do Brasil". Quatro filmes que a fizeram conhecer o povo brasileiro e sua realidade: o subúrbio de "A Falecida", a Copacabana decadente de "Tudo Bem", a favela Brasilândia de "Black-Tie" e agora o sertão de "Central". Quatro rodagens inesquecíveis, com diretores que Fernanda chama de "pessoas generosas, artistas maravilhosos". Benigni - Ela considera suas chances no Oscar reduzidas. Prefere acreditar que "Central do Brasil" tenha mais chances. "O Benigni, com "A Vida É Bela", concorre em tantas frentes que pode deixar uma brecha para a gente." E, depois de suas vivências americanas, Fernanda aprendeu que o Oscar de filme estrangeiro pode ser importante para nós, mas não para o pessoal que representa a indústria de Hollywood. "Eles não ligam para filmes com legendas", diz. Vai torcer até o fim por "Central", mas adverte: "É só um prêmio, não é a honra nacional que está em jogo".
Quando o repórter observa que a principal crítica americana, Janet Maslin, do "The New York Times", considerou sua interpretação a melhor da atual safra do Oscar, Fernanda observa: "Mas não é ela que vota no Oscar; ela com certeza votou no prêmio do National Board Review (o prêmio da crítica), que ganhei por unanimidade". Quem vota no Oscar é gente que pensa no prêmio como investimento. A simples indicação acrescenta US$ 1 milhão ao salário dos atores. "Eles têm consciência do seu valor", diz Fernanda, observando que, no Brasil, quem faz cinema em geral faz mais por amor à arte do que pelo dinheiro. Ela vai serena para o dia 21. "Vou pagar o mico", diz. "Botar o pretinho (um modelo de Valentino) e comparecer: o que vier é lucro".


