Fernanda Montenegro brilha na entrega dos prêmios da APCA; Cacilda Becker foi a homenageada da noite
São Paulo, 31 (AE) - A festa de entrega dos prêmios da Associação Paulista dos Críticos de Artes (APCA) foi uma das mais emocionantes dos últimos anos. A entrega dos troféus, realizada ontem (30), no Teatro Municipal, teve a platéia lotada durante mais de três horas de cerimônia.
Antes do início, alguns artistas desfilavam pelas escadarias com seus figurinos de receber prêmio, como Itamar Assumpção, melhor compositor em música popular, que circulou quase escondido dentro de uma capa de astro de rock bordada e atrás de um desproporcional par de óculos escuros de aros vermelhos de plástico. Ou Bete Coelho, diva da noite, que recebeu o troféu de melhor atriz usando um longo preto que encomendou especialmente para a ocasião. "Não vou falar quem fez porque não gosto desse tipo de ostentação", disse a estrela
que recebeu o segundo prêmio por sua atuação em "Cacilda!".
O auge da noite foi a entrega de três dos principais prêmios de cinema a "Central do Brasil" (ao todo, foram quatro), momento em que Fernanda Montenegro dedicou as ovações do público a Cacilda Becker. Ao lado de Walter Salles, com quem ganhou mais de 40 prêmios internacionais pelo filme, a atriz deixou o palco em lágrimas, dizendo que é muito bom estar de novo em casa.
José Celso Martinez Corrêa comemorou o aniversário de 62 anos no palco do Municipal, em outro momento inflamado da entrega. O criador do espetáculo "Cacilda!" recebeu três estatutetas assinadas pelo artista plástico Francisco Brennand (ao todo, Cacilda! levou cinco prêmios da APCA) e encerrou seu discurso politizado, sempre aos berros, com a declaração: "Viva Cacilda, com exclamação, e viva Fernanda, ponto final".
O presidente da APCA, Luiz Carlos Merten, abriu a cerimônia às 20h15, depois da apresentação da Orquestra Sinfônica Cultura, que interpretou três peças regidas pelo maestro Lutero Rodrigues. Merten falou brevemente sobre a história da associação e passou o microfone para os mestres de cerimônia da festa deste ano: o ator Matheus Nachtergaele, ganhador do troféu de ator revelação por sua atuação na minissérie "Hilda Furacão" e Astrid Fontenelle, que mostrou com a apresentação bem-humorada dos mais de cem premiados porque ganhou o troféu de apresentadora do ano. Prêmios - A primeira série de prêmios, para a área de artes visuais, foi comandada pelo crítico Enock Sacramento. O casal Guita e José Mindlin subiu ao palco para receber o prêmio da categoria gravura, pela coleção de gravuras nacionais expostas na Galeria do Sesi no ano passado. "Estou surpreso por receber esse prêmio e estou surpreso por saber que sou um colecionador"
disse Mindlin.
O artista plástico Brennan, autor da matriz dos troféus da APCA de 1998, foi o vencedor da categoria tridimensional. Morador de um sítio em Pernambuco, o escultor não pode receber pessoalmente o troféu que criou. O Projeto Cultural Banco Safra, responsável pela publicação de uma série de catálogos de luxo com registro dos acervos dos museus públicos de São Paulo, ganhou o Grande Prêmio da Crítica. O colecionador Adolfo Leirner
personalidade do ano, segundo a APCA, agradeceu o troféu ao Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), que recebeu suas obras em uma grande exposição no ano passado.
A entrega dos prêmios de literatura abriu a série de discursos comovidos que tomaram conta da maior parte da premiação. Affonso Romano de Santanna (Grande Prêmio da Crítica) leu um longo poema sobre a mentira, em uma referência à situação política-econômica do Brasil, crítica que foi tema de mais de um discurso da noite. Frei Betto, ganhador do prêmio na categoria infanto-juvenil por "A Noite em que Jesus Nasceu" (Vozes), dedicou seu troféu a todas as crianças. "Se tivesse um grande jornal naquela época, naquela cidade, no dia seguinte ao nascimento de Jesus, ele publicaria na primeira página que uma certa Maria, de uma família de sem-tetos, tinha dado à luz um certo Jesus", ironizou.
Já o professor italiano Giovanni Ricciardi, ainda em literatura, quebrou o ritmo solene dos discursos ao ser chamado para a entrega do prêmio de divulgação no exterior. Ele subiu no palco se desculpando por não ter o mesmo físico de Roberto Benigni, "porque, assim , eu subiria em todas essas cadeiras para mostrar minha alegria em receber este prêmio". José Márcio Mendonça, diretor do Caderno de Sábado, do Jornal da Tarde, dividiu o prêmio de divulgação cultural com sua "pequena e preciosa equipe".
Música erudita premiou Mário Ficcarelli na categoria obra sinfônica, por sua Sinfônica n.º 3. O grupo ¶nima, recebeu o prêmio de melhor conjunto instrumental. Seus integrantes se desculparam por subir ao palco com o discurso escrito: "Nós sabemos tocar, não falar".
A premiação de dança culminou com a apresentação de "Jogo de Dentro", coreografia que rendeu a Cláudia de Souza o prêmio de criação. Gaby Imparato, ganhadora de criação-intérprete por "Morse de Sangue", dedicou o troféu a João Apolinário, seu pai, autor do poema que inspirou o espetáculo e ex-integrante da Associação Paulista dos Críticos de Arte. Cristian Duarte, ganhador da mesma categoria, dedicou seu troféu a todos os elefantes do planeta. Vencedora do prêmio de bailarina intérprete, Zélia Monteiro ofereceu seu troféu in memorian ao coreógrafo Klaus Viana. Teatro infantil - Vladimir Capella foi o autor de teatro infantil mais premiado da noite. Além do Grande Prêmio da Crítica, "Clarão nas Estrelas" e "O Homem das Galochas" recebeu dois prêmios de melhor atriz, além dos troféus nas categorias de cenografia, iluminação e música. Debora Duboc recebeu seu prêmio aos prantos, soluçando muito ao fazer seu discurso, desculpando-se por "chorar mais uma vez". O cenógrafo J.C. Serroni levou a taça de cenografia pela criação para "O Homem das Galochas", "Clarão nas Estrelas" e "No Reino das águas Claras", que recebeu com um sucinto "obrigado". Serroni guardou os agradecimentos para outro prêmio, da série teatro adulto, pelo qual recebou o troféu especial pela criação do "Espaço Cenográfico". O cenógrafo dedicou o prêmio a toda a equipe do centro de cenografia criado há um ano.
A premiação de rádio teve a aparição surpresa de Osmar Santos, que foi receber o troféu da categoria esportes, pela Globo AM, e deixou o palco agradecendo os aplausos com o seu "valeu". Os prêmios de iniciativa de 1998 foram divididos entre 89 FM, pelo programa Operação Rock Trânsito e a Eldorado FM, pelo Espaço à Aventura. O prêmio de jornalismo deste ano foi para a CBN AM/FM.
A empresária Ivone Kazuo recebeu, emocionada, o prêmio em nome de Roberto Carlos durante a entrega da série música popular, que deu a Tom Zé o Grande Prêmio da Crítica. Fernanda Montenegro, que assistia à festa de uma das frisas do Municipal aplaudiu de pé o troféu que Nana Caymmi levou por "Resposta ao Tempo" e pediu para uma amiga receber em seu lugar. Zé Celso levantou quando Astrid chamou Itamar Assumpção. Otto, vencedor da categoria disco, fez muita frisa balançar com a apresentação de músicas de seu repertório como "O Celular de Naná é a Lua". Antes da apresentação, ele disse que sempre foi um cara sem prêmio, e por isso, até vestiu um terno para receber o troféu.
Cinema - Momento mais aguardado da noite, a categoria cinema entregou, entre muitos aplausos da platéia melhor filme, diretor
fotografia e atriz a "Central do Brasil". Walter Salles, que recebeu seu primeiro prêmio da crítica em São Paulo, disse que depois de 14 meses da estrada, não gostaria de encerrar a viagem em terra estrangeira. Fernanda, que agradeceu seu primeiro prêmio pelo filme no Brasil, homenageou Cacilda e "seu xamã", Zé Celso Martinez Corrêa, que em seguida retribuiu a homenagem, dizendo que Fernanda é Cacilda viva.
Cacilda Becker foi a grande homenageada da noite, mas Cleide Yáconis, irmã e ganhadora de atriz coadjuvante na última série da noite, televisão, não foi à festa. Etty Fraser recebeu o prêmio em seu lugar.





