A vida e obra do maior símbolo das artes cênicas no Brasil – Fernanda Montenegro – já percorreram 13 cidades do Brasil através da exposição ‘‘Fernanda EnCena’’. Mais de 250 mil admiradores visitaram o espaço concebido pelo cenógrafo J.C. Serroni. Além do intenso carinho, a atriz recebe lembranças, presentes e cartas. Em Londrina, Fernanda Montenegro foi acarinhada por uma legião de fãs. Juntamente com os aplausos, foram metralhados flashes fotográficos que pareciam orquestrados.
Sempre ao lado do marido, o ator Fernando Torres, ela respondeu questões do público heterogêneo na idade e estreitamente irmanados na reverência com a figura unânime das artes. ‘‘Tive um início de carreira duro, com muito café com leite e pensão barata. Éramos mais ingênuos’’, resumiu. Sua formação na tevê se deu nos teleteatros, de 1956 a 1966, quando trabalhou em mais de 400 episódios desse gênero. ‘‘Era um excelente laboratório’’, destacou. Para a atriz, hoje há mais campo para atores apesar de a concorrência ser maior. Avisa que em novelas seu nome constará apenas como participação especial, descartando a possibilidade de fazer uma produção inteira.
Após o megasucesso ‘‘Central do Brasil’’, recebe pilhas e pilhas de roteiros de todo o Brasil. No entanto, aceitar ou não depende da viabilidade de patrocínio. Isso inclui o projeto empreendido pelo filho de Nelson Rodrigues, Joffre Rodrigues, de levar o clássico ‘‘Vestido de Noiva’’ para as telas.
Destacou para os fãs a importância da família e a parceria com o marido Fernando Torres. ‘‘Temos nosso ‘chega para lá e chega para cᒠde vez em quando’’. Sem querer levantar bandeiras, defendeu o reconhecimento dos artistas pelas autoridades e ressaltou que é preciso que se apresentem chaves para que eles possam realizar seus projetos, sem a obrigação de ser empresa.
O próximo trabalho no teatro é a comédia de Mauro Rasi ‘‘Chiques e Famosos’’, no qual dividirá o palco com o ator Ítalo Rossi, companheiro de décadas, ex-integrante da Companhia Teatro dos Sete. A seguir, alguns trechos da entrevista que Fernanda Montenegro concedeu à imprensa.
Oscar
‘‘Não deu dor no coração não ganhar o Oscar. A minha situação era absolutamente gloriosa, concorrer ao lado dessas mulheres maravilhosas, com grandes agentes e estúdios. A partir dali, sabia que não podia mais. Sophia Loren foi a única que pegou nesse Oscar, um bezerro de Ouro. Recebi prêmio da Associação Norte-americana de Críticos de Cinema por unanimidade.’’
Teatro
‘‘Cinema e teatro não têm o mesmo peso. A nossa pequena companhia teatral nos dá artesanalmente o que precisamos, com muito mais liberdade. Às vezes, com resultado financeiro bom. O teatro sempre te devolve, é só ser fiel a ele. No teatro o mundo é menor, você pode ir com sua lojinha para onde quiser.’’
Cinema
‘‘O problema do cinema no Brasil é que ele começa e morre, começa e morre. Por isso, o ator brasileiro é um buquê de emprego, pois ninguém vive de cinema. Não dá para pagar quarto e sala. Assisti ao filme ‘‘Eu Tu Eles’’ e adorei. É uma saga muito bonita, com o Nordeste apresentado em toda sua candura. Não é uma exaltação à pobreza.’’
Escolas de Teatro
‘‘Na minha geração já havia atores formados. Mas muita gente foi se formando à moda antiga, pela experiência, pela prática de cena. Vê o mais velho atuando e vai aprendendo. Mas a escola é fundamental, independente da qualidade dela. É lá que o ator encontra sua geração. Escola prepara o indivíduo no be-a-bá; ela não dá talento, nem vocação. Às vezes, entram 600 pessoas e se formam quatro. Essa é a realidade.
Método de trabalho
‘‘Todo ser humano tem uma técnica para viver, uma maneira de se pôr na vida, um jogo de cena para estar na vida. Eu não sei como é meu método de trabalho. Depende do grupo, do diretor, da peça, do tempo de ensaio. O espetáculo se completa depois de três meses no ar. Só depois desse tempo que tenho essa inteireza, porque o público participa, melhorando ou piorando o espetáculo.’’
Função do teatro
Não gosto de divinizar a função do homem de teatro. A função do teatro é uma função existencial do homem. Pertencemos à humanidade. O sucesso está dentro de você. Eu quero ser e por isso eu quero estar... Viva de acordo com a sua vontade e sua lisura de vida.’’
Inovação
‘‘Não busco nem o velho, nem o novo. Como Drummond já disse, não quero o moderno, quero o eterno. Não busco o que é mais revolucionário. As coisas vão se apresentando. Não tenho preconceitos, faço da tragédia à comédia mais rasgada, desde que me sinta estimulada a fazer, que tenha qualidade e consistência. Qualquer maneira de amar vale a pena.’’
Política
‘‘Não faço campanha, não declaro o voto. Seria prepotência achar que a minha opinião influencia as pessoas, mas também não condeno nem censuro quem vai fazer. Há causas para se lutar, como justiça social e liberdade de expressão. O engajamento partidário fica por conta de cada um.’’
Censura
‘‘Concordo com a portaria do Ministério da Justiça. Eles estão dando propriedade e impropriedade em relação à idade. Seria terrível se proibissem o horário. Acho nefasto pessoas que brigam pela censura. É tirar o pátrio poder que a família tem dentro de casa. O Ibope mostra que os telespectadores querem nudez, mais peitinhos, mais braguilhas abertas.
Melhores momentos
‘‘Um grande momento, não sei dizer. Não destacaria. Tem a safra e tem a entressafra, como tudo na vida. Depois de 50 anos não há melhor, nem pior. A gente vê um mural de coisas. Fica uma visão prazerosa. A gente é sobrevivente e existente. (Colaborou Jackeline Seglin)