FERNANDA DE CORPO E ALMA
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 19 de maio de 2000
Lucinéia Parra De Maringá 
A palestra da atriz Fernanda Montenegro, anteontem à noite, no Teatro Marista, em Maringá, deixou o público encantado. Ela chegou com a graça e simpatia que lhe é peculiar e logo deixou a platéia à vontade para os mais diversos tipos de questionamentos. No palco do teatro, a atriz não estava representando, mas contando histórias dos 50 anos de sua carreira. Histórias reais que emocionaram, surpreenderam, alegraram e acima de tudo, encantaram. Na platéia, os olhares eram de admiração e até de perplexidade pela simplicidade, espontaneidade e sabedoria da maior diva do teatro brasileiro.
Fernanda não poupou carinho ao público que, embora não tenha lotado o teatro, se mostrou totalmente envolvido com a carreira da atriz. Durante a palestra, Fernanda falou principalmente dos filmes, peças teatrais, família, novelas e dos bastidores do mundo artístico. Entre uma e outra observação mais detalhada sobre passagens de sua vida profissional, ela aproveitou para comentar sobre a posição machista da sociedade brasileira, sobre a magia do teatro, as relações humanitárias e, é claro, sobre o Oscar.
A palestra foi uma coletiva com a platéia, resumiu a promotora cultural do Colégio Marista de Maringá, Ivana Martins. Ela lamentou a falta de público, mas considerou a presença da atriz na cidade como um dos melhores momentos da história de Maringá. A cultura em Maringá é um brilhante que precisa ser lapidado, comentou. Mas quantidade parece mesmo não ter importância para Fernanda Montenegro. Durante a palestra ela buscou maior interação com o público e não furtou os fãs das tradicionais fotos e autógrafos. Nem mesmo os garçons, que serviram o coquetel após a palestra, foram esquecidos pela atriz. A gente precisa dar mais atenção às pessoas que nos servem e que nos auxiliam. Quase sempre elas têm histórias emocionantes para contar, disse ela. Para Fernanda, infelizmente as pessoas estão se esquecendo de dar atenção ao ser humano. Ela ao contrário, valoriza a humanidade. É por isso, disse ela, que o teatro é a sua principal paixão. O teatro - afirmou - não morre jamais porque é emoção, é coração. Só no palco, segundo ela, é possível sentir o carinho da platéia que está ali, bem próxima e reagindo a cada ato encenado. Não é como a TV, que as pessoas regulam o som, a imagem e simplesmente se acomodam para ver o que já foi editado e produzido. Para Fernanda, a platéia é uma família com quem o ator ou atriz mantém um profundo elo de ligação principalmente emocional.
No bate-papo com o público que compareceu no Teatro Marista de Maringá, Fernanda Montenegro não poupou elogios à cidade. Falou sobre a arborização, avenidas e da Catedral Nossa Senhora da Glória. Talvez suas declarações possam parecer apenas mera formalidade. Mas quem teve a oportunidade de assistir à palestra e saber um pouco das suas experiências e da forma como conduz sua profissão, bem sabe que foram elogios verdadeiros. Até porque, Fernanda, como ela mesmo diz, já está em uma fase da vida em que não precisa esconder nada e nem mesmo fazer ponderações. Ela fala o que pensa e o que sente. Ela fala sobre aquilo que a vida lhe ensinou.
Alguns temas polêmicos como os problemas de aplicação de verbas na produção de filmes nacionais como Chatô - que está sendo dirigido por Guilherme Fontes - e Guarani, de Norma Bengel foram abordados durante a coletiva concedida à imprensa de Maringá antes da palestra, mas a atriz preferiu não fazer qualquer comentário. Entretanto, ela lamentou os episódios ocorridos durante as comemorações dos 500 anos do Brasil. Houve erros lamentáveis e o triste é que de repente o que deveria ser um acontecimento para ser comemorado durante um ano, mingou naquele primeiro encontro absolutamente frustrante, disse.
Sobre o título de atriz do século concedido pela revista Isto É, Fernanda se mostrou quase indiferente. Disse que estava feliz, mas que ela mesmo não se portaria desta forma. E completou: É uma coisa tão forte, tão grande, que isso não se restringe a uma pessoa só. Eu citaria as atrizes que me ajudaram e com quem eu representei pela vida afora. Nessa minha profissão ninguém faz uma vida sozinha. Eu sou o resultado da experiência de atrizes com quem convivi e que já se foram e também das atrizes com as quais convivo, ponderou.
Ao falar de novos desafios, Fernanda não demonstrou expectativa de trabalhar com este ou aquele autor, mas disse que neste momento, espera que a alquimia das coisas lhe dê uma nova surpresa. Segundo ela, a indicação para o Oscar pelo trabalho no filme Central do Brasil, foi uma das surpresas da vida. As melhores coisas da minha vida profissional foram coisas que eu não esperava. O filme Central do Brasil é um exemplo porque foi feito com uma estrutura pequena, uma equipe muito integrada. Filme economicamente modesto, de repente ele foi ganhando o mundo e um dia estávamos sentados lá naquele cinemão de Los Angeles, concorrendo a um prêmio da indústria pesada. Não era um prêmio só de arte. Para sentar ali, é preciso o tais milagres. As tais alquimias da vida.
Novos trabalhos da atriz Fernanda Montenegro só mesmo ano que vem. O projeto é fazer uma peça de Maria Adelaide de Amaral sobre a designer francesa Coco Chanel. Por enquanto, ela ainda pretende viajar pelo Brasil afora com a Exposição 50 anos, que está em Maringá e surgiu de uma reflexão sobre o que fazer com tanto material artístico. São mais de 100 fotos de trabalhos inesquecíveis da atriz como O Auto da Compadecida e Eles Não Usam Black-tie; além de fitas de vídeo. A exposição fica até amanhã no Teatro Marista de Maringá com entrada gratuita das 8 às 18 horas. Depois segue para Ribeirão Preto (SP).


