Fernanda Abreu encerra o projeto "Abre Elas" no Sesc
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quinta-feira, 11 de fevereiro de 1999
Por Jotabê Medeiros 
São Paulo, 11 (AE) - Na contramão do reco-reco e do tamborim, do ziriguidum e do telecoteco, a cantora carioca Fernanda Abreu encerra sábado, às 21 horas, no Sesc Belenzinho, o projeto "Abre Elas", uma reunião de cantoras que mostram algum tipo de ligação com a música negra. Antes de Fernanda Abreu, apresentaram-se Elza Soares, Lecy Brandão, D. Yvone Lara e, amanhã (12) à noite, Maria Alcina - encarnando uma Carmem Miranda rápida, em show- homenagem aos 90 anos da morte da cantora.
Fernanda Abreu aproveita o show, para um público estimado em 5 mil pessoas, para despedir-se do repertório do espetáculo "Raio X", que está na estrada desde 1997 e já teve cerca de 300 apresentações. Atualmente, ela está gravando o novo álbum, que deve ser lançado em meados de abril. Claro que Fernanda Abreu não é uma roqueira radical e sua atitude sempre tem sido de reverência para com o samba. Isso tem sua razão de ser: quando pequena, os pais costumavam fazer shows domésticos com um grupo amador chamado "A Patota" - o pai tocava cuíca e a mãe ganzá.
No repertório do show de sábado, o público pode esperar todos os grandes sucessos da cantora, incluindo "Rio 40 Graus", "Veneno da Lata" e "Um Amor, Um Lugar" (de Herbert Vianna). Nada do novo disco, a princípio, está garantido, mas podem rolar umas canjas. O próximo CD da cantora ainda está sem título. Ela tem diversos convidados no trabalho, como Tony Garrido (Cidade Negra), Paralamas, Lulu Santos e Léo Jaime. A cantora também está preparando uma música (que pode ser Tempo de Estio, de Caetano Veloso), para um CD do produtor Memê.
A cantora Fernanda Sampaio de Lacerda Abreu, de 37 anos, ex-estudante de arquitetura e sociologia e mãe de Sofia, ganhou os palcos na década de 80 fazendo backing vocal na banda Blitz, com Evandro Mesquita. Em 1986, quando a Blitz se dissolveu, Fernanda Abreu passou a arquitetar seu novo pulo da gata e decidiu que o futuro seria uma banda funk. Mas, a essa altura, já tinha também sido apresentada ao hip-hop por Fausto Fawcett, grande parceiro até hoje.
Em 1990, Fernanda lançou seu primeiro disco-solo, produzido por Herbert Vianna e Fábio Fonseca. Foi nessa época que ela começou a tomar gosto pela produção de seus shows, uma espécie de baile funk coreografado e com iluminação adequada.
Pouca gente sabe, mas naquelas noites enfumaças do antigo Aeroanta, na metade dos anos 90, era possível ver Fernanda Abreu trabalhando na produção de alguns shows (ela dirigiu o espetáculo Império dos Sentidos, de Fausto Fawcett, em 1986, no Largo da Batata). De volta ao Rio, ela se juntou aos músicos Fábio Fonseca, Fernando Vidal, Aurélio Dias e Bodão e começou a fazer covers de hits da disco music. A coisa engrenou.
Pequena, elétrica, elástica por conta de uma passagem breve pelo balé, Fernanda Abreu é o espetáculo, já que sua voz não é das mais potentes. Ela compensa isso com um timing preciso de dança e de ritmo, coisa que já se tornou referência para toda uma geração de entertainers nacionais. Mas ela também tem um grande apreço pela tradição.
Em "Raio X", ela revisitou o grande legado de um dos maiores compositores brasileiros, Jackson do Pandeiro, na homenagem "Jack Soul Brasileiro", de Lenine. Essa música nasceu de um encontro em Nova York, em julho de 1996, entre Fernanda Abreu, Chico Science, Lenine, Suzano e o músico Otto, do Mundo Livre S/A. Otto deu a deixa batucando a "Cantiga do Sapo", de Jackson do Pandeiro, sobre uma base de hip-hop. Ali nasceu a idéia.
O lançamento de um novo disco de Fernanda Abreu traz uma certa curiosidade extra, já que pode revelar até que ponto a MPB, o rock e seus derivados se renderam à nova ordem eletrônica mundial. A maioria das bandas tem reverenciado o produtor Chico Neves - espécie de Liminha dos anos 90 - e procurado aproximar-se da sonoridade dos clubes europeus. Mas sem perder algo da identidade nacional - o que também se tem revelado algo de fôlego curto. Falta ainda o toque certo de invenção.
Em "Raio X", ela toca ainda uma versão jungle de "Mas Que nada", de Jorge Ben Jor, e as incendiárias "Garota Sangue Bom", "Kátia Flávia" (de Fausto Fawcett) e "A Noite". O cenógrafo do show é seu marido, Luiz Stein, que brinca com projeções que remontam várias fases da carreira da artista.


