Josoé de CarvalhoJá na fila de entrada começa a festa...As quartas-feiras são sagradas. Chova ou faça sol, em período de férias, não tem para ninguém. As sessões da tarde dos cinemas londrinenses são da garotada. As crianças chegam na maioria das vezes em bandos. Alguns pais mais corajosos trazem além de seus pimpolhos, primos e amigos e partem para uma verdadeira empreitada: assistir, junto com os pequenos monstrinhos, aos filmes infantis nos cinemas.
A criançada curte tudo, desde a espera na fila para comprar os ingressos até a corrida desesperada para não ficar sem lugar nas cadeiras. Os pais são apenas os coadjuvantes, que de vez em quando tentam colocar alguma ‘‘ordem’’ na baderna. Em vão, é claro.
Vencida a primeira etapa: a compra dos ingressos, a criançada parte para a compra de balas, pipocas, refrigerantes. As vendedoras - são três para dar conta do recado - se desdobram para atender os pequenos esfomeados que gritam, todos ao mesmo tempo - ‘‘tia, tia’’. Os pais mais uma vez são apenas coadjuvantes. Eles se limitam a abrir a carteira e dar o dinheiro.
Josoé de Carvalho...que se estende durante toda a sessão
Enquanto uns compram as guloseimas outros correm de um lado para outro na tentativa de guardar um lugar: ‘‘Vamos, compra logo, que a gente vai ficar sem lugar’’. Refrigerantes e pacotões de pipoca na mão - ‘‘Tem que ser grande para durar o filme’’, diz uma garota - e os bolsos cheios de balas, eles correm para a sala de exibição.
Começa a sessão São recebidos com um clip de Michael Jackson, que se retorce na telona enquanto a garotada procura se ajeitar no melhor lugar e, é claro, todos falando ao mesmo tempo. Alguns imitam os passos de Michael Jackson, outros gritam. A correria é constante. Antes de o filme começar o chão já está cheio de pipoca.
Em pouco tempo não resta uma cadeira vazia e a garotada vai se ajeitando no corredor central. Chega uma mãe e arregala os olhos: ‘‘Meu Deus, está lotado’’. Um casal mais prudente acomoda uma turminha de cinco crianças e sai. A mãe avisa uma delas: ‘‘Vamos esperar vocês lá fora, certo?’.
O fotógrafo que registrava as imagens para esta matéria dispara alguns flashes. A gritaria é geral, o cinema quase vem abaixo. Minutos depois tudo parece se acalmar. As luzes se apagam. Novos flashes e a gritaria recomeça. Acendem as luzes novamente, até a criançada se acalmar.
Finalmente começa o filme: ‘‘George, o Rei da Selva’’. Um Tarzan atrapalhado aparece em cena se chocando com troncos de árvores. Recomeça a gritaria. Entre uma cena e outra a criançada não pára. Eles entram e saem o tempo todo em busca de mais pipocas, balas, refrigerantes. Conversam, trocam de lugar, vibram.
O que menos parece interessar é o filme. Tudo chama a atenção dos pequenos que tomam conta do cinema. Um garoto pergunta para o amigo do lado: ‘‘Por que será que as cadeiras são todas grudadas?’. O outro um tanto irritado: ‘‘Sei lá cara, assiste o filme’’. Uma garotinha sentada no chão com mais três amigas, parece ser fã do Tarzan trapalhão, com certeza aquela não era a primeira vez que ela assistia ao filme. Muito solícita, ela ia contando para as amigas o desenrolar da história. ‘‘Daqui pouco vem a cena da cobra, vocês vão ver que legal’’.
George já fez todo tipo de trapalhada na telona. O filme chega ao fim. Mal acendem as luzes e toda a garotada levanta ao mesmo tempo, gritando, como não podia deixar de ser, e sai do cinema: correndo. Lá fora uma nova fila imensa e tudo se repete, agora para assistir a ‘‘O Noviço Rebelde’’.

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