Férias inesquecíveis com o peixinho Nemo
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 03 de julho de 2003
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Não importa que o céu continue todo azul e a temperatura amena e ideal no inverno perfeito de faz-de-conta, tudo convidando meninos e meninas para um universo encantado de aventuras ao ar livre nessas férias recém-inauguradas. Mas atenção: mesmo que eles porta afora prefiram bicicleta, futebol, árvore ou pega-pega, você, adulto, claro que deve concordar e até brincar junto. Mas também não deixe por menos e insista: por duas horas apenas, todos ao cinema, correndo. O convite-tentação a partir de hoje no circuito brasileiro é para curtir ''Procurando Nemo'' (veja a programação de cinema na página 2), uma obra-prima sim, isso mesmo, sem nenhum exagero sob qualquer ângulo que se examine. Principalmente, e deliciosamente, até debaixo d'água.
Mergulhando. Único sobrevivente dos 400 ovos que uma barracuda devorou, o pequeno Nemo é um gracioso e travesso peixinho-palhaço que tenta crescer apesar dos temores de seu pai neurótico e superprotetor, Marlin, traumatizado desde a prematura morte da esposa Coral (ela também estava naquela refeição da barracuda...). Nemo nasceu com uma nadadeira bem menor do que o normal, o que o torna especial e incapacitado aos olhos de de outros peixinhos. O pai diz que é a nadadeira da sorte. E de muita sorte que Nemo vai precisar. Numa de suas primeiras excursões escolares ao fundo do mar, ele se distancia dos colegas, acaba capturado e termina preso no distante aquário de um dentista australiano em Sidney.
O pai vai à luta para libertar o filhote, e na jornada conta com a ajuda (?) da hilariante peixinha azul Dory. Ela tem surtos de amnésia mas é valente, e mesmo aqui e ali desmemoriada e sem rumo, ou enrolando a língua e falando em cetáceo, é não apenas de grande valia para a libertação de Nemo como também, com certeza, é o personagem que mais risos espontâneos vai arrancar da platéia miúda, além das tartarugas que viajam nas correntes marítimas e das enormes baleias. Já para os mais crescidos, e adultos em especial, o humor é proporcional ao tamanho dos bichos a reunião do tubarões é hilária (''os peixes são amigos, e não comida'', repetem em processo de descondicionante auto-ajuda), e a entrada em cena da sobrinha do dentista ao som do tema de ''Psicose'' não são gags muito simples que os pequenos pegam no ar.
Enquanto Marlin e Dory procuram enganar ferozes tubarões há também os tubarões ''bonzinhos'', que estão aprendendo a não comer peixes e outros perigosos seres submarinos, Nemo se torna amigo do líder do aquário. Eles têm um plano para escapar, e para isso contam com a cumplicidade de um elemento de fora, um divertido pelicano.
''Procurando Nemo'' não poderia dar mesmo errado, quando hoje se tem a certeza de que os estúdios Pixar, pioneiros da animação computadorizada, são os campeões mundiais no terreno da animação, mesmo acossados de perto pelos incansáveis e também talentosos da DreamWorks, Os criadores da saga de ''Toy Story'' e de ''Monstros S.A. demonstram aqui uma riqueza de detalhes (750 técnicos em ação, um verdadeiro ''dream team'') e um rigor de concepção que mais uma vez enchem os olhos de uma platéia entre deslumbrada e agradecida. É como se o esplendor daqueles documentários de Jacques Cousteau fosse de repente invadido pelo espírito jocoso e aventureiro da turma de ''Babe'', estão lembrados? O animador, roteirista e diretor Andrew Stanton, a quem se deve creditar grande parte desta exuberante magia submarina, assina aqui uma extraordinária aventura temperada com gags de grande eficácia. Nas entrelinhas, sem imposição ideológica mas naturalmente sugerido, um delicado recado sobre confiança, amizade e até sobre problemas de famílias ''solteiras''.
E como já vem se tornando hábito na grife Pixar, muitas surpresas e mais risos chegam, como bônus, durante os créditos finais. Portanto, nem pense em ir embora antes do último plano.


