FERIADÃO ANTECIPA AS ESTRÉIAS
Drama de guerra submarina, comédia esquizóide, animação francesa e nacional de raízes universais são as principais novidades nas salas paranaenses para o fim de semana prolongado
É claro que o exibidor não abriria mão da rotatividade de títulos específicos para a garotada, nesta semana de amplo e inexplicável ócio escolar que antecede o Dia da Criança. Está de volta a maioria dos desenhos animados, todos já com excessiva quilometragem iniciada antes mesmo do recesso de julho. Detonados quase todos os cartuchos, restou quase nada de imagens inéditas para provocar especificamente o interesse e a curiosidade da platéia infantil, dividida entre malabarismos a bordo de faiscantes patinetes e jogos e engenhocas de toda espécie, numa estonteante orgia lúdica pré-Natal. As estréias, portanto, acenam antes para os adultos, embora em alguns casos os menores podem e até devem pegar uma carona. Em outros, como veremos, esta assistência não é recomendada e deverá ser avaliada com reservas.
Iniciados e curiosos sabem que o título U-571 se refere a um submarino utilizado pela marinha alemã durante a Segunda Guerra Mundial. E não vão se decepcionar. É mesmo um filme de submarino, quase um subgênero do war movie que Hollywood cultivou com extrema competência ideológica inclusive principalmente nos anos 50. O argumento aqui é vagamente baseado nas missões aliadas que tentaram, durante a guerra, botar as mãos no código Enigma uma série de informações sistematizadas e secretas, responsavéis por longo período de supremacia dos submarinos alemães no Atlântico.
Na primavera de 1942, quando Hitler comemorava o afundamento de cerca de mil navios de guerra aliados pela ação de sua frota de submarinos, um destes é severamente atingido por um destroier. Com sérias avarias, o U-571 consegue escapar e, por rádio, envia mensagens de socorro. Um esquadrão de americanos e ingleses, disfarçados de alemães, recebe a ordem de capturar a tripulação, decifrar o código Enigma e então destruir o submarino.
Material simples, mas a ação é conduzida com profissionalismo e doses de lógica além do que era permitido esperar. O diretor Jonathan Mostow mantém um andamento vigoroso. Perda de tempo não faz muito seu estilo, como ficou bem evidente em Breakdown, o thriller anterior sobre o yuppie Kurt Russell às voltas com o sequestro da mulher por um caminhoneiro. Mostow trabalha com uma engenharia de planos muito peculiar, e extrai o que quer do interior do submarino a réplica, perfeita, foi construída nos estúdios romanos de Cinecittá.
Dois fatores complicam o resultado final. U-571 ilustra à perfeição que um filme de submarino precisa algo mais, como um subtexto inventivo para manter-se à tona e sempre cativante. Maré Vermelha tinha isso, diálogos crispantes assinados por Quentin Tarantino. Caçada ao Outubro Vermelho idem, baseado em premissa complexa e original. E esses dois exemplos continham ainda o que U-571 não oferece: personalidades. Vale dizer, grandes atores donos de grandes carismas para sustentar personagens fortes e duelos de caráter e temperamento. Como o Sean Connery desertor em Outubro Vermelho, ou a dupla Denzel Washington-Gene Hackman no citado Maré Vermelha. Para não citar ícones como Burt Lancaster e Clark Gable resolvendo diferenças no clássico O Mar Será Seu Túmulo, idos de 58. Aqui, Harvey Keitel, fora de seu habitat dramático natural, ainda consegue estar furos acima de Jon Bon Jovi vai morrer tentando , Bill Paxton e Matthew McConaughey.
O filme, por uma dessas manobras incompreensíveis, foi convidado e participou no mês passado da mostra Sogni e Visioni, manifestação paralela do Festival de Veneza. A única explicação artística para o convite foi a presença do quarteto central do elenco, garantia de muita badalação festivaleira. Como inútil coincidência, a premiSre européia de U-571 coincidiu com o desfecho da tragédia do submarino russo. O minuto de silêncio antes da projeção não foi bem recebido pela platéia.
Da França, animação inteligente
Na verdade, Kirikou et la SorciSre é uma co-produção da França, Bélgica e Luxemburgo. Foi uma das principais peças de resistência no mercado interno francês contra a invasão de desenhos americanos, em 1999, ostentando a invejável estatística de mais de um milhão de ingressos vendidos no país. Uma façanha, sem dúvida, mas não por acaso. Preparado e realizado por Michel Ocelot entre 94 e 99, o longa-metragem é de fato cativante, com sua fórmula híbrida de ingenuidade quase primitiva, seja no traço, seja no roteiro de fabulação sobre o embate entre Bem e Mal.
Do interior do ventre materno, o pequeno Kirikou grita tanto e tão forte para nascer que acaba ele mesmo se pondo diante do mundo. Tão logo nasce, escorregando pernas abaixo de sua confusa mãe, Kiriku pergunta tudo o que lhe vem à cabeça, recolhendo respostas proverbiais. Logo ele se dá conta de que sua pequena e pacífica comunidade africana está entregue à dominação da bela mas muito, muito má feiticeira Karaba. A perversa mulher secou a fonte e é responsável pelo desaparecimento de metade dos homens do lugar, devidamente devorados por ela. Para colocar um ponto final nessas atrocidades, o pequeno herói parte para a montanha proibida. Lá encontra um sábio, que revela o segredo da feiticeira e as razões de tanta maldade.
Baseado em narrativa do folclore da África Ocidental, Kiriku e a Feiticeira é de rara fertilidade criativa, uma alternativa refrescante diante de muitos títulos de qualidade na melhor das hipóteses duvidosa Pokémons, Digimons, Dragon Balls e que tais. Para o registro das vozes, Ocelot optou por atores do Senegal; e na música, o africano Youssou NDour escreveu uma trilha especialmente para instrumentos tradicionais africanos. Para registro, obrigatório: Ocelot, um veterano na animação, embora aqui estreando no longa-metragem, desenhou as mulheres da vila com seios nus, e o pequeno Kiriku sem nenhuma roupa. Pediram a ele que vestisse o menino e cobrisse as mulheres. O diretor se recusou. Houve problemas com os produtores que acharam que as platéias americanas e inglesas poderiam se sentir ofendidas com a nudez. Ocelot foi forçado a encontrar alternativas. Mas o filme sobreviveu, bem como a cultura africana.
Longe daqui, aqui mesmo
Há quase 20 anos, quando Sérgio Rezende despontou com o documentário-denúncia Até a Ultima Gota, sobre o comércio ilegal de sangue, estava claro que nascia um sólido talento. O admirável O Sonho Não Acabou, sobre uma jovem geração brasiliense perdida à sombra dos três poderes, só fez confirmar e ampliar a ótima impressão da estréia. Depois vieram trabalhos bons como O Homem da Capa Preta, e regulares como Doida Demais e Lamarca. Duas superproduções mais recentes, Canudos e Mauá - o Imperador e o Rei, deram a Rezende a condição de cineasta profissional por excelência, alguém capaz de administrar com seriedade e competência uma produção não eleita por opção pessoal. Enquanto isso, o diretor assuntava um projeto já ficando antigo. Ano passado tinha chegado o momento.
Escolhido pelo júri popular como o melhor filme brasileiro do último Festival de Gramado, Quase Nada é uma pequena jóia da recente safra nacional, um filme quase minimalista no recorte da embalagem, mas rico, transbordante, generoso na avaliação da condição humana. O argumento nasceu na cabeça ociosa de Rezende durante um tempo de recesso cinematográfrico na fazenda do pai, no interior fluminense. No trato diário com gente simples, na apreensão de causos e estórias, na ruminação das pequenas tragédias universais que cabem em qualquer espaço geográfico e em qualquer perfil psicológico, surgiram os três episódios de Quase Nada. Três narrativas de crimes, por um quase nada, assim, quase num piscar de olho. Foice , Veneno, Machado, sobre João e Compadre, João e Idalina, Ernani e Glorinha, homens e mulheres anônimos para nós diferentes e distantes de nós em luta feroz com as mesmas emoções e sentimentos. Comuns a todos nós.
Além de mirar e acertar em cheio no que viu, Sérgio Rezende em boa hora sinaliza em direção a um novo rumo para o cinema brasileiro, para o filme em busca da narrativa simples sobre o homem ainda não globalizado. Por enquanto ainda é tempo.
O circo da esquizofrenia
Eles começaram há seis anos com Debi & Lóide, comédia amalucada mas ainda inocente por natureza em que as piadas não eram feitas às custas de alguém. O controvertido Quem Vai Ficar com Mary incursionou com maiores doses de atrevimento pelo território. E agora o acinte supremo (?), o choque e a provocação sem qualquer medida: Eu, Eu Mesmo e Irene.
Charlie (Jim Carrey) é um policial de Rhode Island há 17 anos. Educado, gentil e trabalhador, tem sempre uma palavra amiga. E sobretudo nunca perde a calma. Nem mesmo quando a amada foge com o motorista da limusine alugada para o casamento, deixando os três filhos para ele cuidar. O esforço para manter tudo sob controle, sem nenhuma concessão às emoções, provoca no personagem uma espécie de dissociação esquizofrênica que acaba gerando o alter ego Hanck: agressivo, irascível, inteiramente livre de qualquer freio inibitório. Freio, aliás, que também os Farrely despudoradamente desconhecem.
Deste surrado pretexto narrativo se constrói o filme mais ultrajante do ano. Tudo, é claro, gira em torno do talento histriônico de Carrey, aqui visivelmente preocupado depois de duas performances em território dramático e, por extensão, elitista em assegurar a efusão das grandes platéias.
Estruturado como uma comédia slapstick, o filme contém todo o repertório de provocações de Quem Vai Ficar com Mary e mais, muito mais daquilo que a imaginação desmedida dos Farrely ousou liberar. Se você se surpreendeu e ficou pasmado com o novo gel nos cabelos de Cameron Diaz em Theres Something About Mary, espere até testemunhar um cão alagar copiosamente a câmera. Ou uma garotinha ser seguidamente afogada numa fonte. Ou ainda uma vaca ser fuzilada várias vezes à queima-roupa. Ou Charlie-Hank defecando no quintal do vizinho. Ou partes de corpos despudoradamente expostos. Ou ainda orifícios sendo violados por objetos animados e inanimados. Recado aos pais: deixem as crianças em casa.
Jim Carey persegue ainda uma vez seu sonho mais caro: ele sim, ser o alter ego de Jerry Lewis. Mas o que seria do imaginário dos mortais, se não perseguissem o ideal encarnado nas divindades mitológicas? Renée Zellweger e Chris Cooper, que atravessam ótima fase nas respectivas carreiras, passam pelo filme sem compreender muito bem o que está se passando e, pior, sem saber como embarcaram em equívoco de tais proporções.





