Quem conseguir enumerar todas, levante o dedo. A multiplicação de bandas-cover em Londrina é tanta que até os mais atentos observadores da agenda de shows já perderam as contas de quantas são. Só para o leitor ter uma idéia do fenômeno, nada mais do que sete bandas locais subiram aos palcos na última semana para reverenciar os repertórios de seus ídolos.
Beatles, U2, Creedence Clearwater Revival, White Stripes, Johnny Cash, Silverchair e Blink 182 foram as homenageadas da vez. Espantado? Tudo não passaria de uma eventual coincidência de datas não fosse uma programação musical que se repete quase toda semana, pelo menos desde o final de 2007, quando os shows-tributos explodiram na cidade.
Este fim de semana não será diferente. Amanhã, a banda Porque eu sou Nerd estréia seu show ''Cansei de Ser Sexy Especial''. E no domingo, a banda Matitaperê volta ao palco do bar Valentino para tocar as canções dos Los Hermanos. Para evitar confusões, convém explicar que banda cover é aquela que executa músicas de um único artista ou banda em seus shows.
A cantora Gabriela Catai, que interpreta músicas de Janis Joplin e Rita Lee, atribui a proliferação do formato a um desejo momentâneo do público. ''Percebo que o público londrinense vive de ciclos'', diz ela.
''Há alguns anos, shows desse tipo não seriam bem aceitos pela platéia. Era assim oito anos atrás, quando comecei a cantar. Hoje o cenário está diferente. As pessoas estão preferindo ouvir covers de seus ídolos para poder cantar junto seus sucessos'', afirma. Outra explicação, segundo a cantora, é que ''a cidade ainda não desenvolveu uma cultura de ouvir bandas que apresentam trabalhos autorais''.
Gabriela conta que os espetáculos dedicados a Janis e Rita Lee foram concebidos no começo do ano passado. Pelo primeiro projeto, ela atua como vocalista convidada da banda Pega Ladrão. Os shows têm produção de palco e figurinos. ''A proposta é mostrar uma ambientação de época sem querer confeccionar réplicas das roupas de Janis, à qual, aliás, tento interpretar à minha maneira, mesmo porque seria impossível querer imitá-la já que ela é inimitável'', diz.
O show dedicado a Rita Lee, por sua vez, é uma iniciativa sua ao lado de outras quatro meninas. A banda feminina chama-se Fruttilinas do Éden, uma alusão às bandas Tutti Frutti e Silibinas do Éden, criadas por Rita Lee nos anos 70, após sua saída dos Mutantes. ''Privilegiamos o repertório da primeira fase solo da Rita, que era mais psicodélica'', salienta.
Gabriela explica que, ao contrário do que muitos imaginam, fazer cover exige dedicação redobrada: ''A gente tem que se esforçar para tirar o arranjo como é no original. Não sobra espaço para o improviso. Você tem que interpretar aquilo de uma forma que seja reconhecível. Não pode fugir muito, sob o risco de decepcionar a platéia''.
O guitarrista Lou Sampaio também atua em duas bandas cover, uma dedicada aos clássicos do Led Zeppelin e outra aos sucessos do U2. A primeira foi uma das pioneiras no formato em Londrina. Seus primeiros shows aconteceram em 2001. ''Eu fazia parte da banda Devacan, que desenvolvia um trabalho próprio, e resolvemos montar um show especial em homenagem ao Led, que era a banda favorita dos integrantes. No início, fazíamos o show-cover em intervalos longos. Depois, decidimos acabar com o Devacan e dar continuidade ao projeto do Led, que passou a ser bastante solicitado'', lembra.
Para ele, show-cover sempre conta com um público mais ou menos formado. ''Quando a pessoa sai de casa para assistir a um show desse gênero, ela já sabe o que quer e o que vai ouvir: ela é, geralmente, uma fã do artista ou banda que será homenageado no palco. É diferente de assistir a um show de banda com composições próprias ou com repertório variado. Para esse tipo de espetáculo, a conquista de público é mais demorada'', pondera.
Os projetos autorais, todavia, persistem apesar da tentação de investir apenas na onda cover. ''Minha prioridade é a banda Hocus Pocus, que trabalha com covers mas desenvolve músicas próprias'', afirma Diogo Oliveira, guitarrista atuante em vários projetos cover incluindo Mutantes, Queen, Eric Clapton, Cazuza e Janis Joplin.
Na última temporada, ele passou a tocar também na Rolling Stones Cover. Quem sobe ao palco para executar as canções escritas por Mick Jagger e Keith Richards, é a própria Hocus Pocus. O curioso é que, além de Diogo, todos os demais integrantes da banda participam de outros grupos reprodutores de repertórios alheios, como O Rappa Cover, Red Hot Chili Peppers Cover e Pink Floyd Cover.
''Espero que essa seja uma 'febre' passageira. Prefiro uma maior valorização das bandas que apresentam suas próprias composições'', comenta Lou Sampaio. Gabriela Catai vê um lado positivo no fenômeno. ''Muitas bandas estão aproveitando essa tendência para atrair o público para seus projetos autorais. É o que o Hocus Pocus está fazendo'', assinala. Ela mesma confessa que mantém um projeto ''escondido'' de composições em parceria com um amigo. ''São coisas guardadas para o futuro que misturam MPB, pitadas de samba e bossa e até música eletrônica'', revela. Por enquanto, ela solta a voz nos palcos interpretando canções de Rita Lee e Janis Joplin.

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