O protagonismo feminino - um dos principais temas do 16º Festival de Dança de Londrina - é a tônica do espetáculo que integra a programação do evento desta quinta-feira (11). A premiada atriz-bailarina paulistana Andréia Nhur leva ao palco do Teatro Ouro Verde o solo "Mulher sem fim". Constituída por pequenos fragmentos narrativos, falados e cantados em diversos idiomas, a montagem suscita olhares, imagens e discussões acerca do gênero feminino como agregado de convenções, memórias e estereótipos.

No espetáculo, uma performer que se identifica como 'mulher' apresenta inúmeras versões de si mesma, transitando entre dança, teatro, música e performance para edificar um corpo constantemente trespassado por ecos de mulheres presentes nas memórias de diversas culturas. Elas vão de Madame Bovary a Lady Macbeth, passa por uma macaca selvagem, atravessa Carmen Miranda e chega até Dadá, a cangaceira. Traça, assim, uma dramaturgia da transformação corpórea que desenha e apaga sua própria condição de gênero, por meio de citações de outras mulheres.

A lógica dramatúrgica utilizada remonta à ideia de narrativa em abismo, cunhada pelo escritor André Gide, e faz referência a uma estrutura composta por outras estruturas de mesma natureza, em espelhamento infinito. Como a forma condensa discursos, não há agenda feminista única que orienta uma mensagem, mas um redemoinho de questões que se colocam em relevo: são feminismos sem fim, como vozes em confusão para marcar presença e reexistir.

"Este trabalho não é centrado em nenhuma questão específica. A proposta é apresentar manifestações feministas plurais e apresentar um estudo sobre a construção de gênero", destaca Andréia ao enfatizar que a reação da plateia varia conforme o repertório cultural que cada espectador traz consigo. "Como o texto é falado em diversas línguas, a pessoa que já conhece determinados idiomas consegue acessar camadas diferentes de compreensão. Embora não seja necessário falar compreender diversas línguas para entender as provocações feitas, já que o sentido do que é dito em cena não é literal", argumenta.
A montagem é resultado de parceria de Andréia Nhur com os núcleos artísticos Katharsis Teatro e Pró-Posição Dança, sediados na cidade de Sorocaba-SP. O trabalho mostra um recorte da pesquisa da artista junto aos dois coletivos nos últimos 13 anos, investigando forma e sentido como agenciamentos do corpo em estados múltiplos e descontínuos.

Como apontou o crítico Mijail Miranda Zapata, no Jornal Opinión (Bolívia), "Mulher sem fim" recobra a discussão proposta pela filósofa Judith Butler, ao trazer um corpo que se ressignifica a todo o tempo, destituindo os discursos que constituem seus atributos femininos. Para Butler, a lei é incorporada e, como consequência, são produzidos corpos que significam essa lei sobre o corpo e através do corpo. Grosso modo, o apontamento de Butler concebe o corpo como um articulador de performatividade capaz de subverter normas de gênero. Embora não haja um fim, para Zapata, há um esgotamento físico dessa luta performativa que carrega o peso da história e anuncia um chamado coletivo:

"Mulher sem fim" estreou em São Paulo em maio de 2017. A montagem abriu a programação do Danzènica- Encuentro Internacional de Danza Contemporánea em La Paz (Bolívia) e figurou na lista do Zescar/São Paulo (melhores do ano de 2017 por José Cetra Filho, na categoria de melhor atriz). Em 2018, o espetáculo foi apresentado no Fitaz-Festival Internacional de Teatro de La Paz (Bolívia), recebendo retorno positivo de público e de crítica. Ainda em 2018, o solo abriu a Mostra Latino-Americana de Dança, no Centro de Referência de Dança, em São Paulo.

Indicada ao prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) de melhor atriz em 2015 e melhor bailarina no Prêmio Denilto Gomes de melhor intérprete 2017, Andréia Nuhr é pesquisadora e professora do Departamento de Artes Cênicas da Universidade de São Paulo (USP). A artista tem graduação em dança pela Unicamp e doutorado em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, com estágio doutoral no Departamento de Dança da Université de Paris 8 (Paris-França, 2011). Foi premiada seis vezes como melhor atriz em festivais nacionais de teatro pela atuação em montagens teatrais junto ao Grupo Katharsis Teatro, sob direção de Roberto Gill Camargo. Desde 2007, é bailarina-criadora do Grupo Pró-Posição Dança, atuando em parceria com Janice Vieira na criação de espetáculos e realização de residências e oficinas.

SERVIÇO:
'Mulher sem fim', com Andréia Nhur (SP)
Quando - Quinta-feira (11), às 20 horas
Onde - Teatro Ouro Verde (R. Maranhão, 85)
Quanto - R$10 e R$5 (meia-entrada)
Pontos de venda - Secretaria da Funcart (Rua Senador Souza Naves, 2.380), Loja Shop Ballet (Rua Pio XII, 64 - loja 3) e bilheteria do Teatro Ouro Verde

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