Femininos e ferinos
PUBLICAÇÃO
sábado, 08 de junho de 2002
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha 
A mulher é uma escrava espontânea. Infeliz da mulher que não sabe perdoar. Fuja do homem bonito. Esses são alguns dos títulos que Nelson Rodrigues (1912-1980), sob o pseudônimo de Myrna, utilizava numa coluna de comentários sentimentais.
Através de cartas de leitoras desesperadas por amor, ou pela falta de, Myrna respondia numa espécie de consultório amoroso. A coluna foi publicada no decorrer de 1949 no jornal carioca Diário da Noite, periódico que integrava os Diários Associados.
Os conselhos de Nelson Rodrigues, ou Myrna, partiam do princípio básico de que o amor é imortal se não é imortal, não é amor. Mas também estavam todos pautados na lei primordial de que não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo. Ou seja, defendia firmemente a tese de que o amor sempre traz algum tipo de sofrimento. Assim entrou no coração de milhares de mulheres.
Não Se Pode Amar e Ser Feliz ao Mesmo Tempo é justamente o título que recebeu o volume que reúne, pela primeira vez em livro, uma seleção dessas consultorias sentimentais de Nelson Rodrigues. Lançado pela Companhia das Letras, a obra revela o escritor pernambucano defendendo o sexo masculino com argumentos reveladores. Mesmo propagando o direito ao amor às mulheres, colocava os homens na posição de consumidores de feminilidade.
Juntamente com Não Se Pode Amar e Ser Feliz ao Mesmo Tempo, a publicação do romance A Mentira, marca o início da coleção Baú de Nelson Rodrigues coordenada por Caco Coelho e idealizada pela Companhia das Letras. A Mentira, texto também inédito em livro, foi publicado originalmente na forma de folhetim em 1953 no Jornal da Semana - Flan, comandado por Samuel Wainer.
A Mentira possui praticamente todos os elementos do universo rodriguiano de maneira concisa. Tem muito a ver com os textos teatrais do escritor. Como sempre o palco da história é o seio familiar. Irônico, conta a ruína de uma família a partir de um pequeno engano. Tudo começa quando Lúcia, a caçula de 14 anos de idade, descobre-se grávida. Intimada a responder quem é o responsável pela tragédia, afirma incessantemente: ninguém.
O severo pai passa a desconfiar dos genros, que moram todos na mesma casa. As próprias irmãs de Lúcia passam a desconfiar dos maridos e a casa vira um inferno. No meio do temporal, a mãe confessa que a menina não é filha do pai, mas de outro homem. Apaixonado pelos encantamentos da jovem Lúcia, o pai começa a dar pulos de alegria com a novidade. Coisas de Nelson Rodrigues. E isso é só o começo.
O romance revela o processo de destruição de uma família quando os membros resolvem colocar seus desejos ocultos para fora. E a falsidade como um recurso moral utilizado tanto para a manutenção dos organismos sociais quanto para os interesses mais obscenos.
Serviço
- A Mentira de Nelson Rodrigues, Editora Companhia das Letras, prefácio de Gerd Bornheim, posfácio de Caco Coelho, 142 páginas, R$ 24,50.
- Não Se Pode Amar e Ser Feliz ao Mesmo Tempo de Myrna (Nelson Rodrigues), Editora Companhia das Letras, seleção e posfácio de Caco Coelho, 152 páginas, R$ 24,50.
Finda a meia hora, doutor Maciel entreabre a porta e espia: a luz dos noivos continua acesa. Então, fecha a porta e, numa doentia irritação, começa a falar. Diz coisas sem sentido aparente: O único amor decente é o dos cegos! Só os cegos têm pudor!. Dona Ana senta-se na cama, inquieta e espantada. Não compreende por que será mais lícito o amor nas trevas... Mas o marido, numa espécie de febre, vai olhar outra vez, pela porta entreaberta. A Luz permanece. Então ele não se contém mais. Arremessa-se pelo corredor. Atira patadas no chão, sobressalta a casa com seu clamor:
Fecha essa luz! Apaga essa luz!
(Fragmento de A Mentira)


