Ator desde os 8 anos, Selton Mello já encarnou vários personagens na tevê e no cinema (tendo recebido prêmios nacionais e internacionais por sua atuação em filmes como Lavora Arcaica, Lisbela e o Prisioneiro e O Cheiro do Ralo), mas jamais se identificou tanto com um deles quanto neste novo papel: o de cineasta. Porque foi justamente atrás das câmeras que ele conseguiu apresentar-se sem máscaras ao público, expressando a sua própria concepção de arte.
Em ''Feliz Natal'' (estréia amanhã no cine Com-Tour, em Londrina), seu primeiro longa-metragem, além de dirigir, Mello idealizou o roteiro, em parceria com Marcelo Vindicatto, e ainda ajudou na produção. Escolheu a dedo o elenco, inclusive chamando atores que estavam há muito longe das câmeras, como Paulo Guarnieri, galã da década de 1980 que até ser escalado se dedicava a administrar uma pousada, e Darlene Glória, que teve uma memorável atuação em Toda Nudez Será Castigada (1973), de Arnaldo Jabor, mas também estava longe dos holofotes.
Embora já tenha dirigido curta-metragens e videoclipes anteriormente, foi em Feliz Natal que Mello se sentiu realmente ''com a alma em jogo''. E com razão: com um drama familiar ambientado (e que estreou) na época do Natal, período em que as pessoas costumam justamente evitar reavivar conflitos, seu filme veio incitar o público a refletir - e isso não costuma arregimentar multidões. Mas nada disso foi problema para este diretor estreante, que sempre soube muito bem o que queria dizer com seu filme. ''É preciso incentivar o público a pensar, a completar a travessia que eu proponho'', alega. Nesta entrevista, Selton Mello revela como foi atuar na direção e adianta que já está pensando no próximo filme.
Em que você se inspirou para elaborar o roteiro de Feliz Natal?
O roteiro nasceu de um certo desconforto que sempre senti nessa época do ano. Meu pai faz aniversário nesse dia, ele se chama Dalton Natal de Melo. Curioso, né? Em um Natal há uns três anos atrás tive essa idéia, fazer um filme exacerbando tudo que sempre senti nesse período.
Você fez o filme que quis, com quem e como quis. O que achou do resultado?
Foi um belo primeiro filme, no qual pude trabalhar ao lado de gente que admiro muito. Sou feliz demais com o resultado de tudo.
Seu trabalho como ator já é reconhecido pelo público e pela crítica. Por que deixou o conforto desse seu posto e enveredou para a direção?
Pela necessidade de apresentar o meu olhar, um retrato do meu espírito. Como ator não é possível se mostrar por inteiro, tem sempre um personagem usado como uma máscara. A transição veio de forma natural, acho que motivada pelo desejo de fazer alguma coisa diferente. E veio para minha vida definitivamente. É viciante. Você é o maestro. E precisa estar ligado em tudo o que acontece. Nunca me senti tão feliz realizando um trabalho quanto no set de ''Feliz Natal''. Foi um prazer enorme poder apresentar o meu olhar.
Uma história mais ''sombria'', personagens densos, nenhum ator com grande apelo de público. De fato, comercialmente falando, o que mais chama a atenção para o filme é o fato de ele ser dirigido por Selton Mello. Isso o incomoda?
Não incomoda, pois não fiz um filme para ser aprovado ou reprovado. Isso é pessoal, a arte é muito subjetiva. Fiz para que as pessoas pudessem assistir e se identificar. E a idéia de fazer alguma coisa que ficasse instalado em corações e mentes do público é algo gratificante.
E o próximo filme, quando vem?
Ainda não posso falar muito do meu próximo projeto como diretor. Em linhas gerais, ele trata de artistas circenses, suas paixões, suas dificuldades, seus medos. Mas quero experimentar outras formas de me expressar atrás das câmeras. Quero adaptar ''O Alienista'', de Machado de Assis, que é um filme de época, a produção é maior, a direção de arte também. Ainda não estou pronto para fazer um filme assim. Mas a partir do próximo, começo a dirigir e atuar - quando eu crescer eu quero ser o Clint Eastwood... (risos)

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