FELIZ IDADE
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de outubro de 2000
Simone Mattos De Curitiba 
Idade não é limite quando há força de vontade. No Recanto do Tarumã, instituição que atende a quase 200 idosos, em Curitiba, moram vários talentos anônimos. Escritores, poetas e músicos utilizam a sua arte para tornar a vida mais alegre. E conseguem.
É isso ao menos o que garante o neto de italianos, Rafael Cambio, 69 anos, um talento escondido entre as paredes do asilo, onde mora há três anos. Desde que sofreu um acidente que lhe deixou problemas na coluna e diminuiu a sua agilidade, ele resolveu se dedicar exclusivamente à poesia. O resultado é surpreendente.
Utilizando equipamento emprestado, Cambio já digitou 120 poesias suas, que guarda em disquetes. Em busca de patrocínio para publicar o primeiro livro, ele sonha também com a aquisição de um computador, o que lhe permitiria organizar seus poemas. Gostaria ainda que ele estivesse ligado à Internet, para poder mandar meus poemas para o mundo, sonha.
Formado em Contabilidade, profissão que exerceu até se aposentar, ele tem grande afinidade com os livros, além de ótimo nível cultural. Graças a isso, conquistou rapidamente o posto de bibliotecário da instituição.
Hoje, dedica muitas horas de seus dias aos livros do Recanto do Tarumã. Me sinto bem aqui, ocupo o meu tempo lendo e escrevendo poemas, afirma. Otimista e falante, ele comenta que costuma aprender muito com os livros, mas muito mais com as pessoas. Estando de bem com a vida, a vida vai estar de bem com você, ensina.
Um colega seu, Silvio de Oliveira Dias, é outro autodidata das letras. Com apenas 56 anos, mora há meia década no asilo, mas mantém uma rotina de fazer inveja a muitos jovens. Recentemente voltou a estudar e está encerrando o segundo grau.
Engajado no grupo de teatro do colégio, sonha em prestar vestibular para o curso de Artes Cênicas e, no futuro, escrever textos que possam ser interpretados no palco. Quando está no Recanto do Tarumã, passa o seu tempo estudando, lendo e escrevendo.
Desde que ganhou um concurso de poesias em Joinville (SC), há 14 anos, não parou mais de escrever. Seu primeiro livro lançado foi Revivendo a Infância, recheado de poesias infantis nas quais o autor coloca no gerúndio as ações dos animais, utilizando expressões como borboletando, passarinhando e outras.
Mais tarde, publicou o conto infanto-juvenil Pelos Caminhos Coloridos da Infância. Na sequência, vieram os livros Colhendo Flores e Novos Rumos.
Suas obras mais recentes são o romance Daniele, a Dama do Lago, a ficção A Cidade de um Sonho e Criança de Hoje, Brasil de Amanhã, que fala sobre a atual situação da criança de rua. Dias escreveu ainda o livro de reflexões Amar é uma Ciência e Saber Amar uma Virtude, baseado em pesquisas realizadas por ele, através de questionários.
Com muita dificuldade, cada publicação sua é lançada através de um patrocínio, já que não possui contrato com nenhuma editora. As tiragens são pequenas, entre 100 e 500 exemplares, mas cada lançamento é comemorado como se fosse uma vitória e a tiragem sempre se esgota rapidamente. Os livros são vendidos para bibliotecas de várias escolas do Paraná e Santa Catarina, o que significa a única fonte de renda do autor.
A vasta produção literária é mesmo a sua grande alegria na vida. Com muito orgulho, Dias conta que uma de suas poetas preferidas, Helena Kolody, já elogiou um trabalho seu. Ela disse que eu tenho o dom da poesia, afirma.
Além dela, o escritor admira a obra de Carlos Drummond de Andrade, Maria Clara Machado e do mestre Zbigniew Ziembinski. Afirma ainda que lê regularmente romances e jornais diários, o que o ajuda a escrever cada vez mais e melhor.
Quando escrevo estou viajando, desligado da realidade, e para mim isso é uma benção. É uma forma de não sentir tanta amargura, como se fosse uma terapia, finaliza.


