No filme ‘‘A Hora Mágica’’, Guilherme de Almeida Prado não manipula freneticamente as imagens. Ele é um gentleman com a câmera. O glamour da época de ouro do rádio foi revisitado de maneira elegante.
O primoroso acabamento visual, a extrema sofisticação da linguagem e apuro técnico não são suficientes para traduzir o filme. Como o resgate sonoro foi ressaltado, Prado centrou suas forças neste quesito. O som foi totalmente finalizado no Brasil, o que demonstra nosso avançado estágio técnico, e vem confirmar nossa vocação para o cinema.
O filme de Guilherme de Almeida Prado faz uma homenagem sem cerimônia ao fascínio e ao poder criado pelo rádio no imaginário popular. A trama foi centrada na transição do rádio para o império da TV. Os musicais, os bailes de Carnaval e os jingles pontuam o filme e dão suporte à trama. Quando Tânia Alves (Lúcia Cantarelli) embala os corações cantando inesquecíveis boleros, tudo se transforma. Os ânimos se alteram.
O público, acostumado a ver filmes de rodapé, lendo apenas legendas de produções americanas, desacostumou-se a ver a amplitude e o poder das nossas imagens. Prado não facilita muito a compreensão de seu filme. A trama é intrincada, requer toda a atenção.
DivulgaçãoJosé Lewgoy dança com Julia Lemmertz: ator foi aproveitado em vários papéisO cineasta foi buscar no próprio cinema o direcionamento de seu trabalho, adequando até a forma de interpretação dos personagens. O distanciamento e frieza que se percebe em determinadas cenas têm suas razões. Percebe-se na interpretação dos atores e na maneira de trabalhar a câmera, nítidas influências do cinema mudo. Um filtro atual recupera esses gestos.
A impressão é que fora dos domínios do set, os personagens desfalecem, evaporam. Tudo é ilusão, é cinema noir tropical. Esse recurso de estilização é a proposta do cineasta para embarcar na fantasia. Mas ao mesmo tempo em que o resgate sonoro absorve o público, a irregularidade da trama o afasta. Nem sempre se consegue pegar o bonde da fantasia. A desigualdade na atuação de Raul Gazolla não chega a comprometer o conjunto. Mas David Cardoso, rei da pornochanchada, está visivelmente deslocado como policial. Maitê Proença transitou livremente na canastrice exigida pelas divas do cinema mudo. Conseguiu arrancar gargalhadas do público.
Um jogo de citações vai amarrando ‘‘A Hora Mágica’’. José Lewgoy, figura mitológica que se confunde com a história do cinema nacional, foi muito bem aproveitado em vários papéis. Como porteiro cego, ele vai montando o quebra-cabeças e dando as pistas do possível assassino da história. Os momentos mais sublimes de ‘‘A Hora Mágica’’ são com a atriz Julia Lemmertz. Sua imagem é um casamento perfeito com a película.
Os 103 minutos de ‘‘A Hora Mágica’’ não propõem somente uma reflexão sobre a manipulação dos meios de comunicação e das pessoas. Instiga uma discussão sobre o cinema brasileiro, tão rico em temáticas, diverso em estética e distante de se solidificar.

mockup