Em 2016, o fotógrafo Rui Rezende passeava com seu filho na Chapada Diamantina, rumo à Cachoeira da Fumaça, quando avistou um campo de flores roxas. À primeira vista, ficou intrigado porque estava numa área que havia sofrido incêndio e, ainda assim, viu e fotografou aquele território florido que estava coberto pela espécie conhecida como candombá.
Essa planta só rebrota em áreas submetidas a incêndios, o que nos põe a pensar sobre o milagre do renascimento, numa época do ano em que geralmente colamos os caquinhos e florescemos de novo à espera de um ano melhor.

Imagem ilustrativa da imagem Feliz Ano Novo
| Foto: Marco Jacobsen



Anos atrás, numa região entre as duas Coreias, morreram 1 milhão de soldados norte-coreanos e 600 mil militares do sul. A região foi tomada por minas terrestres e armadilhas antitanques. Com a aparência de um ressecado campo lunar, a faixa de terra de 4 km de largura e 250 km de comprimento, foi o local da morte de cerca de 4 milhões de pessoas. Trata-se de um desses tristes locais da Terra para o qual ninguém acreditava em futuro. Mas com o passar do tempo, a área foi pacificada e ali renascerem as florestas densas, arbustos e gramíneas que se configuraram como um novo ambiente que abriga também animais que estavam em extinção, como o urso tibetano e o leopardo asiático.

De 1957 a 1962, a Ilha de Christmas (ou Ilha do Natal), no Oceano Pacífico, considerada a maior ilha de corais do mundo, foi submetida a pesados testes nucleares promovidos pelos Estados Unidos e a Inglaterra. Ali foram jogadas bombas atômicas de 24 quilotons. A título de comparação, não custa lembrar que a bomba de Hiroshima - que deflagrou um dos maiores flagelos da humanidade - tinha 15 quilotons de potência.
Na Ilha de Christmas chegaram a jogar, a partir de balões, bombas de 3 mil quilotons a 2700 metros acima do mar. Um exemplo da estupidez humana que não se importa com as condições de vida no planeta colocando, acima de tudo, projetos de poder que não levam em conta a sobrevivência da própria espécie. Um tratado de interdição, firmado em 1963, deu um fim a esses testes nucleares. E, assim como em outros casos, a vida aos poucos se regenerou no local, com os ventos carregando partículas radioativas para o oceano, onde elas se diluem rapidamente.

Exemplos assim podem ser aplicados a florestas dizimadas, solos queimados onde as plantas nativas dão lugar a pastos - muitas vezes abandonados - a cursos de rios que sofrem com a seca, até que a mata nativa recuperada dê lugar de novo aos olhos d'água.

Com o ser humano não é diferente. Em nossas vidas, muitas vezes somos vítimas das secas, dos bombardeios, dos incêndios particulares que nos deixam descrentes das possibilidades de recuperar a existência plena. Neste ano em que muitos perderam pessoas queridas, acompanharam notícias de violência e morte, perderam a esperança tendo em vista a crueldade humana com os de sua própria espécie ou com os animais, não custa lembrar que, apesar de tudo, o renascimento é possível, como uma dessas flores do asfalto que teimam em nascer em lugares improváveis.

Quando nos cortamos é comum lavar o local com água e sabão, primeira providência para recuperar-se de uma ferida. Portanto, ainda que seja difícil e arda um pouco, vamos limpar as mágoas, soprar os machucados como nossas mães faziam, num gesto curativo que demonstra que é possível se recuperar de tudo. Nas nossas vidas há renascimentos que vão muito além do corte no dedo ou da poda das plantas na primavera. Então, não desanimem, soprem os machucados, e tenham um Feliz Ano Novo.

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