Felino corrosivo
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quarta-feira, 18 de dezembro de 2002
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
Esqueça as outras sugestões de presentes. Se o seu amigo secreto é louco por quadrinhos, corra para a banca mais próxima e descole um exemplar do álbum ''Fritz the Cat'', que acaba de chegar às prateleiras pela editora Conrad.
O álbum reúne histórias do célebre personagem criado nos anos 60 pelo desenhista norte-americano Robert Crumb. Na época, Fritz the Cat virou símbolo do underground transformando o autor em herói da contracultura. A edição brasileira, com tradução de Alexandre Matias, traz HQs produzidas entre 1961 e 1971 destacando a história que descreve a morte de Fritz, assassinado por uma avestruz enciumada.
O material é de báu, garimpado em revistas alternativas e diversas compilações. Abrangente, inclui inclusive tiras rascunhadas a lápis nos cadernos escolares do autor, quando Fritz ainda se chamava Fred. ''Na adolescência, sempre desenhei para evitar ter contato com o resto do mundo'' diz Crumb no texto de introdução, já revelando sua personalidade indócil.
Com a intenção de manter as características originais das histórias, as letras do álbum foram feitas à mão por Lilian Mitsunaga, imitando a grafia do autor. Das primeiras aventuras, nas quais Fritz poderia ser confundido com gatos fofos de gibi infantil, o personagem foi soltando as garrinhas passando a protagonizar histórias ácidas temperadas de sexo, anarquia e violência.
Apesar de virar ícone da geração paz & amor, Crumb destilava humor mordaz contra os ideais hippies demolindo mitos da revolução sexual. Atacava também o anticomunismo, a hipocrisia da classe média, a brutalidade policial, os junkies, os guerrilheiros de botequim e universitários em geral.
Arredio ao sucesso, viu a contragosto seu personagem chegar às telas numa versão cinematográfica de grande bilheteria.
O filme, ''Fritz the Cat'', foi dirigido por Ralph Bakshi e anunciado como o primeiro desenho animado proibido para crianças. Antes, quando publicou o primeiro gibi de Fritz, Robert Crumb já era paparicado nos círculos alternativos. ''Eu já estava famoso, ao menos entre a subcultura descolada, e era abordado por um exército de picaretas, bandidos, pilantras e toda sorte de tubarões do mercado'' lembra, ainda na introdução.
Mas Fritz não foi seu único personagem famoso. A galeria inclui criaturas como ''Mr. Natural'', ''Angelfood McSpade'', ''Mr. Snoid'', ''Frakey Foont'', ''Whiteman'' e ''Bo Bo Bolinski'' alguns confessadamente criados sob efeito do LSD. Todos são marcados por traços sujos e caricaturais. Todos circulam por histórias regadas a orgias, drogas, bebidas, política e elementos da cultura underground dos anos 60.
Aclamado como gênio da HQ, Robert Crumb vive hoje na França. Nos últimos anos, tem participado na ilustração de livros de autores consagrados, como Charles Bukowski (''O Capitão Saiu para o Almoço'' e ''Os Marinheiros Tomaram Conta do Navio''), além de esporadicamente publicar histórias de Mode Ol'Day na revista Weirdo. Suas últimas HQs inéditas saíram em agosto passado na revista ''Mystic Funnies'', lançada pela editora Fantagraphics Books.
A antologia brasileira chega ao público com 138 páginas, em formato grande e miolo de papel couchê. A contracapa traz depoimentos de artistas que foram influenciados pelo autor. ''Uma das coisas mais legais do Crumb é que qualquer história dele parece pertencer a um universo amplo, de aventuras intermináveis, um épico à parte, mesmo que só estejamos vendo uma tirinha na nossa frente. Fritz tem muitas páginas, mas é como se não tivesse the end'' diz o cartunista Laerte.
''Fritz the Cat'' custa R$ 37,00. Quer apostar que vai ter correria às bancas?
Serviço:
''Fritz the Cat''. Autor: Robert Crumb. Editora Conrad (telefone (11) 3346-6088). Preço: R$ 37,00.


