"Felicidades" é um dos destaques do fim de semana
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quarta-feira, 14 de abril de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 15 (AE) - Vencedor do prêmio da crítica no Festival de Cannes e do prêmio do público na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, ambos no ano passado, "Felicidade" estréia amanhã (16) na cidade. É o novo filme de Todd Solondz, nome importante do cinema independente dos Estados Unidos, que já exibiu talento no seu filme de estréia, "Bem-Vindo à Casa de Bonecas". Não se iluda com o título: "Felicidade" mostra um bando de pessoas infelizes e solitárias. O mais estranho no filme de Solondz é o sentido de humor do diretor: fazendo um filme que é um compêndio de perversidades, ele as trata como se fossem absolutamente naturais.
Os personagens são todos desajustados. Outro diretor faria um tratado de aberrações, aproveitando que muitas situações estão no limite da escatologia. Não Solondz. Se existe alguma idéia por trás do seu filme deve ser a de que é preciso ser tolerante com o ser humano. Só é normal quem tem algo a esconder (ou a exorcizar). É um filme que impressiona mais a uma primeira visão. É impactante. Não resiste tão bem à revisão. De qualquer maneira, um filme que consegue satisfazer tanto aos críticos quanto ao público (mesmo que seja o da mostra, normalmente mais exigente), merece toda atenção.
Logo no começo, um homem vai ao analista e inicia um longo monólogo sobre seus desejos mais íntimos. Quer possuir uma mulher. Na verdade, ele usa termos bem mais fortes e vulgares. Vai num crescendo de ansiedade e frustração. O analista, entediado, começa a cochilar. O espectador entra no seu pensamento para descobrir que ele está ali apenas de corpo presente. Na verdade, está longe, pensando em outra coisa.
O analista é um personagem sob medida para provar o que o diretor quer dizer. Pedófilo, compra revistas pornográficas para masturbar-se. Estupra o coleguinha do filho e mantém um diálogo nos limites do absurdo com esse último, quando conta tudo o que fez. O pai não é o único a recorrer, sem qualquer espécie de emoção, à palavra consciente. Uma mulher que matou e cortou em pedaços o porteiro que a violentou também conta em detalhes tudo o que fez sem, em nenhum momento, pensar em desculpar-se. Conta como se fosse uma coisa normalíssima. O sujeito queria estar dentro dela e ela detesta sexo. Motivo mais do que suficiente para matá-lo.
A normalidade é a obsessão de Solondz. Já era assim em "Bem-Vindo à Casa de Bonecas", com sua personagem principal, aquela garotinha nerd, feia de doer, que aprendia com os próprios pais o sentido da crueldade. As relações familiares são asfixiantes nos filmes do diretor. As pessoas são cruéis umas com as outras e com elas mesmas. Não admira que Solondz tenha feito um filme para questionar a felicidade e, por meio dela, denunciar a vida de subúrbio como a verdadeira face da sociedade americana doente.


