Felicidade ao nosso alcance
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 11 de abril de 2012
Ubiratan Brasil <br> <br> Agência Estado 
São Paulo - Uma coincidência curiosa: a partir de sexta, as livrarias começam a receber o primeiro romance publicado pelo português valter hugo mãe, ''o nosso reino'' (Editora 34), que saiu em 2004, quando ele ainda assinava com minúsculas, e também ''O Filho de Mil Homens'' (Cosac Naify), lançado no ano passado, momento em que o autor passou a utilizar letras maiúsculas para seus títulos e sua assinatura. Ambos opostos mas, ao mesmo tempo, muito próximos, como ele observa na seguinte entrevista, feita por e-mail.
O que há em comum e o que diferencia esses livros?
Ambos têm uma ligação ao universo das ingenuidades infantis. O primeiro, o nosso reino, acaba sendo o negativo de O Filho de Mil Homens. Os resultados dos livros são opostos. Quando comecei a escrever prosa, tudo me surgia muito disfórico, uma necessidade qualquer de entender essa tristeza que penso ser fatalmente portuguesa. Hoje, depois de muito pensar como é Portugal, creio que quis contar uma história encantada. Queria inventar alguém raro, difícil de ser real, mas que mostrasse quanto as coisas fundamentais da felicidade são simples e se colocam ao nosso alcance. Eu diria que ambos os livros são um começo. O primeiro, já sei de quê, o segundo, estou muito curioso por descobrir.
E o que dizer da crueza poética da linguagem literária, notada nas duas obras?
Gosto da expressão muito extremada, para o êxtase e para a tristeza. Tenho pouca atração pela expressão média, essa coisa meio de manutenção, como se o texto estivesse só a ganhar tamanho. Sempre trabalho com esses limites. As minhas personagens estão muito bem ou muito mal, e o livro vai observando como elas podem oscilar entre ter e perder tudo. Isso leva a uma poética crua, eu diria que a cada frase bela pode assistir já uma contaminação de medo que impede que a beleza seja unicamente boa. Acredito muito que o esforço para a felicidade é quase desumano e precisa ser feito a cada segundo, em cada pensamento e cada gesto. Por isso é tão fácil desistir de ser feliz e apenas sobreviver.
A tristeza ronda ''O Filho de Mil Homens'' e o que importa a Crisóstomo é ter consciência dessa tristeza, mais que combatê-la.
No livro, diz-se que é preciso assumir a tristeza para reclamar o direito a ser feliz. Penso muito que vamos mascarando demasiado o modo como sentimos, e tanto assim até que já não permitimos que o nosso consciente saiba quem somos, como somos, o que nos tornaria melhores. O Crisóstomo, que não existe e eu quis que fosse o indivíduo certo, perfeito, decide terminar com o seu tempo triste. Coloca diante de si tudo quanto lhe falta, e busca-o candidamente. Acontece como num conto de fadas. Gosto muito disso. Como se precisássemos todos de viver num conto de fadas para vencer as armadilhas que montamos para nós mesmos. É muito irônico.
Esse livro também parece ter sido escrito por alguém com lucidez sobre a perenidade da vida. Isso incomoda?
Incomoda muito. Vivo demasiadamente sentindo o tempo, perco o tempo, lamento não ter feito um milhão de coisas, duvido constantemente de ter escolhido o caminho certo, conheço gente que me parece muito mais decente do que eu. É uma porcaria pensarmos que o melhor que podemos fazer pelos outros é escrever um texto. Gostava de agir mais sem pensar. Penso tudo e isso é um modo de ficar só.
E no que é melhor se apoiar para escrever, na lucidez ou na insanidade?
Na insanidade, não. Não quero nada ser louco. Ao contrário, queria ser tão lúcido e inteligente que pudesse resolver problemas, ter ideias perfeitas para mim e os outros. Salvar tudo. Adorava não me desperdiçar. Os loucos podem divertir-se muito, mas talvez estejam demasiado encerrados sobre si mesmos, não constroem em favor do outro. E acho que a glória de um autor estará toda na possibilidade de se aperceber de uma boa frase, de uma boa história. Eu fico maravilhado quando alguma frase me transcende. Fico a admirá-la. Sem perceber muito como foi possível, mas procurando entendê-la lucidamente, como a incorporá-la, quase suplicando para que essa frase passe a fazer parte de mim. Já é um pouco louco, isso. O suficiente. Mais, não. Por outro lado, também acho que o papel de um autor é tomar as personagens, por mais loucas que pareçam, e entender quanto puder entender sobre elas. Criando uma lucidez naquilo que as define. Algo sempre se perde, mas a utopia é alcançar essa lucidez, a informação, o retrato absoluto.
Você parece escrever compulsivamente. Qual assunto que te interessa no momento?
Confesso que sei só escrever. Se não estiver a escrever, estou só a fazer parvoíces. Sempre procuro estar interessado em algo. Agora escrevo um livro a passar-se na Islândia. Procuro pensar sobre um exercício de solidão específico. Quero imaginar um inverno rigoroso num fiorde islandês. Coloco as personagens numa povoação mínima que se isola em absoluto. Quero saber como a cabeça das pessoas transforma o lugar, o próprio lugar, feito de rocha, gelo, neve e água, numa companhia. Ter uma rocha por companhia, ter a água como um ser vivo. Os islandeses recônditos sentem o espírito de tudo. É muito assustador e fascinante.
Com ''O Filho de Mil Homens'', você passa a assinar definitivamente seu nome com maiúsculas?
Sim. Com o encerramento da tetralogia que escrevi, e que terminou com a máquina de fazer espanhóis, não podia deixar de mudar. Aterroriza-me a ideia de cristalizar fórmulas. Foi difícil, porque acredito muito nas minúsculas e na pertinência de como as usava, mas era importante não ficar preso a nada. Fazer a mesma coisa pela vida inteira é violento. Não quero. Prefiro arriscar outra vez. Recomeçar. Fugir um pouco de mim mesmo.
SERVIÇO
* O Filho de mil Homens
Autor Valter Hugo Mãe
Editora Cosac Naify
Quanto R$ 39,90 (256 páginas)
* o nosso reino
Autor valter hugo mãe
Editora 34
Quanto R$ 35 (168 páginas)


