Feitiço na passarela do samba
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terça-feira, 29 de fevereiro de 2000
Fernando Miragaya 
TV Press
Véu à parte, Joana Prado já garantiu lugar na folia carioca. Depois de ser descartada pela Mangueira, a Feiticeira do programa O+ fez uma espécie de aquecimento no barracão da Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro, na Zona Portuária do Rio de Janeiro. Tudo para, no dia 6 de março, o segundo do desfile do Grupo Especial, por volta das 23 horas, tentar mostrar que, além de curvas, tem gingado. Embora não tenha arriscado passos de samba, a estonteante loura paralisou os trabalhos no barracão, mas aqueceu os ânimos dos salgueirenses. Estou muito ansiosa, na expectativa de chegar na avenida, deixar descer um caboclo e sambar, brinca Joana, que pela primeira vez vai desfilar em uma Escola de Samba.
Mas faltou pouco para que a Feiticeira ficasse de fora do Carnaval deste ano. A sorte dela foi que o Salgueiro conseguiu encaixar o visual das arábias, com véu de odalisca, no enredo Chegada da Família Real. Já a diretoria da Mangueira, com um enredo sobre a cultura negra, não engoliu o véu que Joana não pode tirar por exigência contratual com a revista Playboy. Ela chegou a visitar a quadra da escola, fazer declarações de amor e até posar para fotos ao lado do busto de Cartola. Mas o véu ofuscou os planos. A agremiação alegou que o adorno não se enquadraria no enredo. Agora só falo do Salgueiro. Mangueira é passado, escapa Joana.
A convocação do Salgueiro surgiu logo após a confirmação de que Joana não sairia na verde e rosa. O carnavalesco Mauro Quintas e a diretoria da escola da Tijuca se reuniram, consultaram os demais destaques do carro alegórico no qual Joana vai desfilar e decidiram formalizar o convite. O véu, em vez de empecilho, acabou servindo como argumento. Ela será um dos destaques do carro Abertura dos Portos, com sua fantasia de odalisca representando a figura oriental das especiarias que chegavam ao Brasil. A Joana vem complementar um processo de criação que já existia, garante Mauro Quintas. O meu véu faz parte de um encanto. Quem faz mais sucesso é ele, que traz todo um clima de mistério e fetiche, elucubra Joana.
E foi com um véu vermelho a cor do Salgueiro que Joana deu uma prévia do rebuliço que deve causar no Sambódromo. Diretores, foliões e funcionários da escola não escondiam a ansiedade e a agitação com a chegada da loura, que foi ao barracão conhecer o carro alegórico no qual vai desfilar. Todos queriam tirar fotos, conversar com ela ou apenas observá-la. Afinal, este ano a Feiticeira é o centro das atenções, posto que foi de Tiazinha no ano passado e de Carla Perez em 1998.
Troca de gentilezas daqui e dali já virou lugar-comum entre destaques e escolas. Entre Joana e Salgueiro não foi diferente. A Feiticeira não poupou elogios à escola e a agremiação também a tratou como uma rainha. Na verdade, ambas as partes fazem uma espécie de investimento. Tanto Joana como o Salgueiro conseguem mídia e atenção. Vai ajudar minha carreira. Não é apenas no Brasil. O mundo inteiro vai estar assistindo, gaba-se a moça. Conseguimos mídia forte, o que traz benefícios para a escola. O Carnaval é uma vitrine, admite o carnavalesco Mauro Quintas.
Nem o assédio que Joana provavelmente vai sofrer durante o desfile preocupa o Salgueiro. No ano passado, Susana Alves, a Tiazinha, acabou provocando uma aglomeração de pessoas antes do início do desfile da Tradição. Resultado: a escola atrasou, teve de correr com o desfile e perdeu pontos nos quesitos Evolução e Harmonia. A Tiazinha desfilou no chão. A Joana vai vir no carro, em cima. É menos perigoso, minimiza Mauro Quintas. Já a Feiticeira não esconde a ansiedade em desfilar. Logo ela, que o máximo de contato que teve com a folia foi nos bailes de matinê na infância. Coincidentemente tinha uma fantasia de odalisca que eu adorava, lembra. Joana cresceu, mas a fantasia continua e, para deleite dos foliões, aparentemente manteve o mesmo tamanho dos tempos de criança.


